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Expresso

A igualdade de género não passa pela opressão dos homens 

Ainda há uns dias escrevia aqui sobre os perigos da extrapolação do feminismo, ideologia que se desvirtua totalmente quando se embarca em extremismos. Quem escreve, promove debates, desenvolve estudos, trabalha na regulação legal e passa a palavra sobre esta temática tem o dever, a meu ver, de ser sensato ao quanto à mensagem final. E é mesmo muito perigoso quando tal não acontece. Esta semana, cruzei-me com um texto de opinião partilhado na plataforma Capazes que me deixou verdadeiramente nauseada e, por mais respeito assumido que tenha pelo trabalho que este coletivo feminista tem feito em prol de uma discussão mais abrangente sobre a igualdade de género, hoje não posso estar mais em desacordo com o que por ali li.

O texto em questão – que podem ler na íntegra aqui – até começa com uma reflexão deveras interessante sobre os micromachismos culturalmente aceites e incentivados. Contudo, a solução dada pela autora para o fim da opressão feminina prende-se com uma linha de pensamento que me deixa boquiaberta: “É tempo de retirar aos opressores o poder de oprimir. E, na democracia, o poder se exerce pelo voto. A suspensão temporária do poder do voto dos homens brancos é a única chance de produzir uma real alteração no mundo no espaço de apenas uma geração. Todos os dados demonstram que apenas 20 anos seria o suficiente, e os benefícios seriam universais, e não apenas para mulheres (...) Essa alteração não se faria pela força, mas dentro do próprio processo democrático. Não seria uma proibição, como a que as mulheres suportaram durante séculos e séculos, mas uma simples suspensão, um retardo bem delimitado no tempo. Seria a chance de, pela primeira vez na História, celebrar um contrato social de partilha de privilégio, sem derramamento de sangue, com o objetivo de realizar a justiça social.”

A discriminação não se resolve discriminando

Lamento, mas não consigo perceber como é que se consegue sequer pensar ou falar de justiça social quando parte dos seus cidadãos são legalmente oprimidos. Opressão, agressão e discriminação não se resolve oprimindo, agredindo e discriminando. Alinhar neste raciocínio é concordar com uma subversão preserva daquilo que são os pilares do feminismo: a igualdade de direitos, tratamento e oportunidades entre homens e mulheres, e de todas as restantes minorias historicamente oprimidas. Tornar uma sociedade mais par não passa, nem nunca poderá passar, pela opressão de qualquer cidadão, independentemente do seu género, idade, raça, orientação sexual, religião, filiação política e demais fatores que formam a individualidade de cada um de nós.

Se desejamos, cada vez mais, ser cidadãos plenos de sociedades que se querem livres e democráticas, apelar à opressão é um caminho doentio, incoerente e nefasto. Tão nefasto quanto uma ditadura. Fomentar a discriminação é, consequentemente, fomentar o ódio. De parte a parte, entenda-se. Por exemplo, que sentimentos e posteriores consequências provocaria tal medida na minoria afetada? Repressão não causa certamente compreensão e tolerância. Nem muito menos respeito.

Sim, há ainda uma predominância clara do homem branco enquanto ascendente de poder e opressão. Mas não, não vamos cair no erro crasso da generalização e do extremismo. Não há nada de feminista nisto, lamento. Nem tampouco de humanista. Já para não falar de que se olharmos para trás, devemos igualmente respeito a todos os homens que ao longo dos séculos se juntaram e continuam a juntar aos movimentos de libertação da mulher. Seria redutor e enviesado para todos nós não o fazermos.

Não podemos esquecer que falar de feminismo é também falar de direitos humanos, para os quais não deveria haver distinções. Se ainda as há, o caminho passa, sim, por resolvê-las pela via da educação e da alteração de mentalidades, processo que deverá ter por base a tolerância, o respeito e a justiça, e nunca a agressão deliberada. Privar alguém do seu direito ao voto é uma agressão à sua liberdade e dignidade, tão simples quanto isso.

Alimentar discursos e raciocínios do género é alimentar toda a incompreensão, desdém e desconfiança que ainda existe quando falamos de feminismo. Desserviço público, lamento.