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Expresso

A música misógina está no meio de nós

Não há dúvidas que a música e a misoginia têm andado de mãos dadas nas longas últimas décadas. Do rock ao hip-hop, da kizomba à música pop, é verdadeiramente inacreditável a quantidade de referências discriminatórias e sexistas que podemos encontrar em quase todos os espectros do universo musical. Os videoclipes conseguem ser verdadeiros circos dos horrores, com a sexualização constante da mulher a ser usada enquanto equação vencedora, tanto em jeito de troféu no caso dos artistas masculinos (basicamente, um reforço da sua masculinidade), como uma forma de vender às massas as artistas femininas, que, pelos vistos, não são suficientes pelos seus dotes vocais.

Mas se os vídeos e as performances em palco conseguem ser tantas vezes perturbadoras, quando paramos para ouvir as letras tudo isto sobe a outro patamar, diria eu, que chega a algo mais perigoso. E não, não estou a falar apenas das grosserias do género bastante comuns no mundo do rap, por exemplo, nem tampouco das músicas da moda cantadas pelos Kanye Wests da vida. Se começarmos a ouvir com atenção, vamos encontrar exemplos aberrantes em artistas distintos, dos Guns N’ Roses ao Martinho da Vila (ambos exemplos de discos que tocam amiúde lá por casa).

Incitação à violência física e emocional em relações de intimidade, ao sexo sem consentimento, ao sexo com menores, ao racismo, à estereotipação dos comportamentos das mulheres, à objetificação do sexo feminino e sua subjugação e subserviência perante o mundo masculino: tudo isto é cantado e passa na rádio diariamente. E o que é mais preocupante é que praticamente todos nós continuamos a consumir este tipo de conteúdos por vontade própria. A pagar para ouvir tais mensagens, totalmente subtis quando mascaradas com por trás batidas apelativas. A cantá-las em plenos pulmões durante concertos e a dançá-las com amigos como se devessem ser celebradas.

Resumindo, somos nós que, ao consumir este tipo de mensagens implícitas, estamos inconscientemente a validar que elas continuem a existir. E ao fazermos isto, estamos simplesmente a desvalorizar o poder que tais mensagens podem ter quando tocadas às massas e, principalmente, quando ouvidas por adolescentes. Devemo-nos sentir culpados? Não sei. Mas pelo menos devemos ter esta consciência. No Brasil, país onde a música tem inúmeros exemplos deste género, surgiu um página que relacionada com isto que merece um aplauso. Chama-se Arrumando Letras e tem como lema a frase “aqui o preconceito não tem licença poética”.

A ideia tem tanto de simples quanto de genial: analisar as letras das músicas palavra a palavra e tentar reescrevê-las com mensagens mais positivas, realçando o que estava de errado em tal música. Muitas vezes, acompanhada na legenda da imagem por de contactos de associações que podem ajudar a lidar com a problemática inerente ao poema. De Roberto Carlos, a Eminem ou aos Beatles, deixo em baixo alguns exemplos. Inicialmente até pode até dar vontade de rir porque os comentários são super bem-humorados e irónicos, mas quando paramos para pensar que há milhares de pessoas a cantar estas músicas sem reparar no seu conteúdo, perde rapidamente a piada.

Aproveitem que a Vida de Saltos Altos vai estar de férias nas próximas semanas para reparar nisto. De certeza que – tal como eu – já deram por vocês a cantar e dançar coisas do género.