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Expresso

Sete mulheres em lingerie, uma mensagem

Uma mulher que dança, desengonçada, em lingerie. Outra que sorri timidamente em roupa interior, sem se sentir totalmente confiante, outra que ajeita as alças do soutien com cabelo desalinhado ou que se enrosca na cama, agarrada à almofada. Sete mulheres distintas, com idades entre os 18 e os 73, juntas com um objetivo: comunicar a nova linha de lingerie da Calvin Klein, que decide fazer assim uma ode à beleza natural feminina nas diferentes fases da vida.

Muito tenho falado por aqui da constante pornificação do corpo feminino, tanto no mundo da moda como no da publicidade. Aponto o dedo regularmente à preguiça de quem é pago para delinear estas estratégias de comunicação, recorrendo amiúde a clichés tão batidos, quanto abusivos, como os da objetificação e da sexualização extremas da mulher. Em resposta, muitas vezes dizem-me que isso acontece porque este cariz sexual implícito na mensagem passada às massas cumpre o seu propósito, ou seja, vende. Regra geral, respondo com uma outra pergunta: será que as massas não comprariam igualmente se a mensagem fosse passada de outra forma?

A Calvin Klein tem um novo diretor de comunicação desde o ano passado que me parece que tem vindo a colocar a mesma questão. Depois da campanha de roupa interior masculina com os protagonistas do filme Moonlight, chega agora esta campanha de lingerie feminina que pretende ser um regresso à inocência, uma verdadeira ode ao lado mais real da intimidade feminina, num misto de naturalidade, descontração, insegurança, nostalgia e, é claro, também sensualidade.

Filmadas em lingerie pela realizadora Sofia Copolla, sete mulheres são o rosto da campanha: Kirsten Dunst, Lauren Hutton, Rashida Jones, Nathalie Love, Laura Harrier, Maya Thurman-Hawke e Chase Sui Wonders. Sei que a ideia final é vender lingerie, mas esqueçam as habituais poses provocadoras, as pernas abertas, as línguas a roçar lábios, as mamas espetadas e demais clichés usados para vender estes e outros produtos. Estas mulheres aparecem tal qual como tantas de nós somos na nossa intimidade, algo que está longe de ser em jeito de mulher com “corpo perfeito de Photoshop”, eternamente jovem, ou sequer como uma mulher fatal, a tempo inteiro.

Tudo isto, aliado à forma quase confessional como cada uma explica, em vídeos individuais, alguns pormenores sobre os seus primeiros amores, parece que tem tudo para garantir o sucesso do produto final. São imagens que nada têm de sexual, é certo – que eu saiba, a roupa interior também não foi feita a pensar em sexo, mas, sim, no conforto diário de quem a usa -, contudo há claramente algo de muito erótico na naturalidade inerente à forma como todas as mulheres foram filmadas. Cada uma é o que é, em diferentes fases da vida. É íntimo, é descontraído, é realista, é bom. Foi pensado sem preguiça e resulta, basicamente porque a probabilidade de a consumidora final se rever em tais imagens é elevada.

No que toca à lingerie e restantes produtos da marca, espero que depois da ode à intimidade da mulher nas duas diferentes idades, venha também uma ode aos diferentes tamanhos e formas corporais, tal como à diversidade de etnias, sem estereótipos. Lá chegaremos, tenho a certeza.