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Expresso

O que temos nós a ver com os pelos da filha da Madonna?

Antes de me alongar no tema que me leva a escrever hoje, gostava de deixar claro que, independentemente de algumas escolhas editoriais, respeito muito o trabalho desenvolvido por jornais como o Correio da Manhã e o JN. Casas por onde passam óptimos jornalistas que, lá está, independentemente de alguns dos temas desenvolvidos, fazem um belíssimo trabalho. Contudo, e sendo A Vida de Saltos Altos um espaço dedicado maioritariamente às questões de discriminação de género, hoje não consigo deixar de lhes apontar o dedo pela forma ridícula, totalmente vazia de conteúdo e sexista a vários níveis com que abordaram uma ‘não notícia’.

O título, acompanhado por uma foto da protagonista desta ‘não história’ , é uma aberração: “Filha de Madonna não faz depilação”. Depois, tanto a entrada da notícia como a forma como foi divulgada nas redes sociais destes jornais, consegue ser ainda mais grave, não só pela total falta de conteúdo noticioso, como pelo sexismo inerente a toda a frase: “a filha de Madonna, Lourdes Maria, esteve com amigas numa praia em Miami, mas não foi a sua forma física nem o biquíni que chamaram a atenção”. Como dizia uma da representantes do movimento #HeForShe em Portugal em resposta a isto, “está tudo mal nesta notícia”.

Todos os que já passaram por redações sabem que os fait divers têm um elevado consumo por parte dos leitores, que precisam, amiúde, de artigos de descompressão. Não há mal nenhum em se escrever este tipo de conteúdo inusitado, mas se queremos fazer dele notícia, no mínimo, há que ter cariz noticioso. E que eu saiba, o facto de alguém – neste caso a filha de uma figura pública - não fazer depilação às axilas não é notícia, nem aqui nem em lado nenhum (embora os tabloides ingleses tenham adorado o mexerico – mexerico, isso mesmo).

Mas não é propriamente a falta de critério que mais me impressiona – infelizmente, vamo-nos habituando a isso. O que está por trás deste fait diver merece atenção: mais uma vez, a expectativa sobre o que é esperado da figura feminina, que, obviamente, se quer fresca, sensual e sem pelos, porque a sociedade assim o tem ditado. Para quem escreve a peça, o facto de Lourdes não depilar as axilas é um sinal de tendência para a “espírito rebelde”, algo que herdou da mãe. Incrível, uma mulher que não se depila é rebelde, fugindo, portanto, à norma. Quanto ao facto de a depilação ser uma opção meramente individual e natural, ninguém faz menção. É tão mais fácil continuarmos a perpetuar ideias estereotipadas sobre o que mulheres e homens devem aparentar do que fomentar a desconstrução das mesmas.

Depois há também o facto de as axilas peludas de Lourdes terem desviado as atenções, que assumidamente deveriam ter estado focadas na forma física do seu corpo e no design do seu biquíni. Ou seja, é esperado que o corpo de uma rapariga que vai à praia com as amigas chame à atenção e que mereça apreciações externas. Basicamente, a sua liberdade individual e o seu direito à privacidade não interessam para nada. Se é filha de Madonna, o mundo em geral – dos paparazzi aos leitores – têm direito a escrutinar o seu corpo, tal qual pedaço de carne no talho. A mim, tudo isto me parece muito errado e, acima de tudo, preguiçoso. A sério que com tanta discussão atual sobre estas questões, não conseguimos fazer melhor para conseguir cliques nos jornais?