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Expresso

Agressões em direto no Big Brother Brasil são lição sobre a vida real

Ridicularizar e menosprezar o outro, manipular conversas, passar de demonstrações de afeto diretamente para agressões verbais, forçar o confronto verbal, encurralar o outro a um canto ou segurar-lhe os pulsos tendo em vista a redução de mobilidade, gritar, exercer superioridade corporal, fazer chantagem emocional, coagir, agredir fisicamente, culpabilizar a vítima das agressões pela escalada de violência. Pedir desculpa no fim e dizer que não volta a acontecer. Até à vez seguinte. Ainda ontem falava por aqui sobre os números das violência doméstica no mundo, e todas as ações atrás descritas são bem comuns dentro deste tipo de relações abusivas. Acontecem em contexto de intimidade, dentro das quatro paredes que deveriam significar o mais seguro dos locais para qualquer pessoa, e raramente alguém testemunha esses momentos, que a vítima, se quiser justiça, terá de ser a própria a provar que aconteceram. Mas no Brasil, tudo isto aconteceu em direto na televisão nacional.

Quando há uns anos valentes Marco deu um pontapé a Sónia na primeira edição do Big Brother em Portugal, o país quase parou. A agressão foi abertura de telejornal, fez correr tinta em jornais e revistas, mas pouco se falou sobre o ato em si, do quão grave era e da importância de o vermos em direto, enquanto exemplo real daquilo que acontece dentro de tantas casas portuguesas e que poucos ousavam – e ainda ousam – falar ou admitir. Houve até muita gente que, passada a indignação inicial, até ficou do lado dele, porque ela um bocado brejeira e tinha pouco tento na língua. Basicamente, ela tinha uma cota parte de culpa. Já ele, coitado, era abrutalhado, sim senhor, mas até tinha tido motivos para “se passar da cabeça” momentaneamente. Algo que, obviamente, não significava que ele tivesse ou viesse a ter comportamentos agressivos do género ao longo da sua vida. Montou-se o circo das audiências, e a única punição pelo pontapé foi o homem ser expulso do programa, para semanas mais tarde estar nas boas graças do país quando foi surpreender a sua amada com declarações de amor do lado de fora da casa. Dos efeitos traumáticos que tal agressão violenta poderá ter tido na vida de Sónia ninguém quis saber.

Isto foi há mais de quinze anos. Hoje, em 2017, no Brasil o reality show volta a pôr todo um país a assistir na primeira fila a um caso de violência, desta vez entre um casal. Marcos, cirurgião plástico, 37 anos, e Emily, estudante, 21 anos, são os protagonistas. Mas isto não é uma telenovela, nem tampouco um filme. É a vida real, em direto para todo um país onde os níveis de machismo, discriminação e violência de género são inenarráveis. Onde a percepção do que é admissível dentro de uma relação de intimidade continua a deixar muito a desejar, e onde a mulher continua a ser a figura que mais é violentada – física e psicologicamente – dentro da sociedade.

O parágrafo que abre este texto resume os atos que Marcos tem tido na sua relação amorosa com Emily. A grande novidade é que, desta vez, houve intervenção não só por parte do programa (que expulsou o homem após um acesso de fúria contra a namorada), como as próprias autoridades brasileiras decidiram intervir uma vez que a vítima fez queixa publicamente sobre lesões físicas e psicológicas provocadas por uma das últimas discussões do casal. A Lei Maria da Penha – criada para proteger as mulheres dos ataques constantes à sua dignidade e integridade físicas e psicológica, em contexto relações de intimidade - entra assim em ação e espera-se que se faça justiça. Veremos.

Porque é que é importante falarmos sobre isto e olharmos para os múltiplos vídeos das agressões de Marcos a Emily que proliferam no Youtube? Porque aquelas mesmas situações acontecem a milhões de pessoas mundo fora, sem que muitas vezes elas tenham sequer noção que estão dentro de um relação abusiva. Porque para muitas vítimas a vida é simplesmente assim, mesmo que seja um sofrimento constante. Porque isto acontece demasiadas vezes debaixo do nosso nariz, a amigos, familiares e conhecidos, sem que nos apercebamos ou sequer prestemos atenção aos sinais. Porque se continua a achar que “entre marido e mulher não se mete a colher”, quando todos devíamos meter a colher, o garfo e faca quando alguém está a ser vítima de comportamentos abusivos. Porque a violência doméstica é algo ainda muito real nos tempos de hoje, como todos pudemos assistir em direto, através da televisão, sentados no sofá. Porque a aceitação social deste flagelo é brutal. Se isto acontece com o agressor consciente de que tem câmaras a filmar os seus atos para todo um país, o que poderá acontecer quando ninguém está a assistir?