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Expresso

Retratos de violência doméstica numa cabine fotográfica

É muito provável que quem visita Berlim pela primeira vez acabe dentro de uma cabine fotográfica para fazer as imagens da praxe, a preto e branco. Faz parte do roteiro de experiências a ter na cidade. Mas agora imagine que entrar num dessas famosas cabines da cidade era entrar também numa campanha de sensibilização relacionada com os índices de violência doméstica naquele país. E que numa das quatro imagens tiradas – regra geral com caretas – o seu rosto aparecia coberto de hematomas. Isto está acontecer neste momento em Berlim, pela mão da ONG Terre de Femmes em parceria com a dupla de criativos portugueses José Filipe Gomes e Pedro Lourenço. E o resultado é incrível.

A experiência da “Bruise Automat” é muito simples, mas o seu impacto final é fortíssimo: a pessoa entra na cabine fotográfica e tira os tradicionais quatro retratos. No final, um deles aparece manipulado por um software de reconhecimento facial, simulando nódoas negras e feridas resultantes de agressões corporais. Basicamente, a pessoa é confrontada com a sua própria imagem, enquanto possível vítima de violência doméstica. E porquê apenas uma foto manipulada numa série de quatro retratos? Porque uma em cada quarto mulheres é vítima de violência doméstica na Alemanha. Isso mesmo, 1 em cada 4.

Estamos habituados a achar que este tipo de agressão acontece apenas em países subdesenvolvidos, pautados por dificuldades económicas ou onde os direitos das mulheres e a percepção do que é o seu lugar em sociedade e na família ainda está longe de ser igualitário. Mas os números são muito claros, basta querer vê-los: por exemplo, no maior inquérito europeu sobre o tema - realizado a 42 mil mulheres - concluiu-se que, nos 12 meses anteriores, 13 milhões de mulheres na Europa tinham sido agredidas fisicamente e 3,7 milhões sexualmente, ambas as situações dentro de relações amorosas. Também em 2015, por exemplo, o próprio primeiro-ministro australiano dizia publicamente que “a violência doméstica é a vergonha da Austrália”, com uma em cada seis mulheres daquele país a ser alvo de violência física ou sexual extrema por parte do parceiro, pelo menos uma vez na vida.

Dados da Organização Mundial de Saúde revelam que uma em cada três mulheres no mundo já foram agredidas física ou sexualmente, com uma incidência atroz deste tipo de crime a ser praticado dentro de relações de intimidade ou no seio familiar. Segundo as Nações Unidas, menos de 40% dos casos de violência doméstica são denunciados, uma realidade que não nos devia deixar impávidos, nem que seja porque em Portugal também é isto que maioritariamente acontece: o último Relatório Anual de Monitorização da Violência Doméstica (realizado pelo Ministério da Administração Interna), revela que, só em 2015, as forças de segurança nacionais receberam, em média, a 2235 participações por mês, 73 por dia e 3 por hora. Cerca de 78% dos quase 34 mil inquéritos de violência doméstica analisados entre 2012 e 2015, resultaram em arquivamento.

Não me vou alongar em números, mas não me canso de repetir isto por aqui: ao contrário do que muita gente ainda pensa, este não é um problema exclusivo a realidades pautadas pelas dificuldades económicas, pelas dependências ou pela falta de formação académica. A violência doméstica é um problema transversal às diferentes zonas de país e do mundo, extratos sociais, graus de escolaridade, posições profissionais, etnias e idades. E as mulheres continuam a ser as suas principais vítimas. É preciso falar disto. É preciso sensibilizar, consciencializar e agir, para que esta verdadeira pandemia possa ser travada, em vez de se perpetuar de geração em geração. Isto não é um problema apenas “dos outros”, é um problema de todos nós enquanto parte de uma sociedade que tem por pilares fatores como a liberdade, a segurança, a igualdade e a dignidade.

A ideia da dupla de criativos da DDB Berlim personaliza a violência doméstica. E essa é uma maneira inteligente de se conseguir passar a mensagem, o meu aplauso.