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Expresso

José Mayer, pedir desculpas publicamente não basta 

d.r.

"Mexeu Com Uma, Mexeu Com Todas, Chega de Assédio”. Foi com esta frase como ponto de partida que um grupo de mulheres que trabalham para a Globo fez um protesto contra a passividade da empresa e a negação de José Mayer, perante uma denúncia de assédio moral e sexual feita sobre o ator. Quando uma figurinista o acusou publicamente de continuado assédio, seguido de agressões verbais, o galã das novelas brasileiras primeiro negou, apelando à base de “respeito e confiança" conquistados em 49 anos de carreira. Um argumento que não gerou solidariedade entre as colegas, que acabaram por encabeçar o tal protesto. A Globo acabou por suspender o ator e José Mayer acabou por assumir a culpa publicamente. Mas será que isso chega? Não.

Nas palavras escritas por Susllem Tonani, de 28 anos, no blog "Agora é que são elas" (do jornal Folha de São Paulo), a situação de assédio terá durado cerca de oito meses, começando por frase consideradas, à partida, tão inocentes como “nossa, como você é bonita” e “você se veste tão bem”. Depois, o cariz dos comentários foi escalando, passando para insinuações do género "fico olhando sua bundinha e imaginando seu peitinho" ou "você nunca vai dar para mim?". A figurinista terá confrontado o ator, que perante a recusa a tais avanços, insistiu com abordagens físicas, incluindo apalpões nos genitais. Fazia-o em pleno set de filmagens e havia muita gente que ria e achava normal, como se fosse quase uma honra ter a atenção do ator, um dos mais famosos da Globo. Para Susllem Tonani, era simplesmente um abuso. Decidiu evitá-lo e não lhe dirigir a palavra. Em resposta, teve ameaças e insultos, muitos deles feitos também em público. Porque é que não fez queixa? Porque tinha vergonha. E porque ele era “prata da casa” e a jovem figurinista sabia que “não seria punido”.

Numa carta tornada pública ontem, José Mayer assume-se culpado. “Eu errei. Errei no que fiz, no que falei, e no que pensava. A atitude correta é pedir desculpas. Mas isso só não basta. É preciso um reconhecimento público que faço agora. (...) Mesmo não tendo tido a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar, admito que minhas brincadeiras de cunho machista ultrapassaram os limites do respeito com que devo tratar minhas colegas. Sou responsável pelo que faço”. Quanto a isto, estamos totalmente de acordo: José Mayer é um homem adulto, mentalmente são e responsável máximo pelos seus comportamentos. O que fez não é simplesmente “algo errado”, é, sim, um crime previsto pelo Código Penal brasileiro.

Pedido de perdão ou estratégia pura e dura?

Uma carta deste género, nitidamente a puxar ao sentimento, a colocar um ato que é crime como um simples erro, é mais uma vez tentar banalizar atos que são de uma enorme violência psicológica e moral, e que têm por base a eterna aceitação de uma cultura misógina, discriminatória e violenta, que afeta milhões de pessoas mundo fora. Pessoas essas que, enquanto vítimas de tais abusos, são continuamente desacreditadas, ridicularizadas e silenciadas em prol da desculpabilização do agressor, tal como aconteceu inicialmente a Susllem Tonani. Infelizmente, denunciar casos de assédio sexual e moral ou de abuso sexual ainda é um verdadeiro ato de coragem. E conseguir que se faça justiça pode ser um verdadeiro calvário que poucos terão capacidade de resiliência para aguentar.

Em tom de desculpa, escreve ainda José Mayer: “Tristemente, sou fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas. Não podem. Não são. Aprendi nos últimos dias o que levei 60 anos sem aprender. O mundo mudou. E isso é bom. Eu preciso e quero mudar junto com ele. Este é o meu exercício. Este é o meu compromisso. Isso é o que eu aprendi”. O que José Mayer não me parece que tenha aprendido, é que esta tentativa de inversão dos papéis não é uma forma, sequer, correta de abordar uma situação tão grave quanto esta. É marketing puro e duro, depois da Globo ter sido forçada a suspendê-lo.

Não, José Mayer não é uma vítima

Sim, José Mayer cresceu numa geração que via o machismo como uma forma de estar na vida. E sim, é importante assumir e refletir sobre isso, até porque essa forma de pensar continua muito presente nos dias de hoje e corremos o risco de a estar a perpetuar para as próximas gerações. Mas não, José Mayer não é uma vítima. Ter 67 anos, ser marido e pai, fazer parte de uma classe social privilegiada ou ser um ator respeitado não o torna menos culpado, nem tampouco o retira da posição de sofrer as consequências pelos seus atos. José Mayer, volto a frisar, é um homem adulto, são e responsável pelos seus atos. É sua obrigação saber quais são as regras da vida em sociedade, para além dos hábitos culturais enraizados. Saber o que é certo e o que é errado, quais são os limites do respeito que não podem ser ultrapassados e quais as fronteiras entre o que é um simples erro e o que é um crime.

“Espero que este meu reconhecimento público sirva para alertar a tantas pessoas da mesma geração que eu, aos que pensavam da mesma forma que eu, aos que agiam da mesma forma que eu, que os leve a refletir e os incentive também a mudar. (...) A única coisa que posso pedir a Susllen, às minhas colegas e a toda a sociedade é o entendimento deste meu movimento de mudança”. Não, José Mayer. A primeira coisa que pode e deve fazer é pedir desculpa diretamente à mulher que assediou e agrediu deliberada e continuadamente. Mas tenho de concordar consigo: “pedir desculpa não basta”. Tal como não basta este tentativa de perdão público através de uma estratégica carta aberta, digna de guião de novela. Não é perante os fãs ou os colegas que deve assumir a culpa, mas, sim, perante a lei. E ser punido como qualquer outro cidadão seria.