Siga-nos

Perfil

Expresso

Paris bane publicidade ofensiva: Censura ou serviço público?

Ao longo das últimas décadas deu para perceber quão fácil é utilizar estereótipos discriminatórios para fazer trocadilhos em campanhas publicitárias e durante muito tempo foram poucos os que questionaram tal fórmula. Esta trazia resultados às marcas e o resto pouco importava. Contudo, nos últimos anos temos visto uma alteração da percepção deste tipo de mensagem ofensiva passada às massas, com países como Inglaterra e Suíça a darem o exemplo ao optarem por uma maior regulação do sector. Agora, depois de mais uma campanha polémica da gigante Yves Saint Laurent, foi a vez de Paris tomar medidas nesse sentido.

A partir de 20 de novembro deste ano, serão proibidas nos espaços públicos daquela cidade campanhas publicitárias que utilizem representações degradantes, ofensivas e desumanizadas de homens e mulheres, tal como mensagens discriminatórias com base em fatores como, por exemplo, o género, a etnia, a religião ou a idade. Resumindo, campanhas cuja mensagem inerente - seja ela de forma explícita ou simbólica - ataque a dignidade humana, não terão espaço na capital francesa.

Tudo isto acontece depois da tal recente campanha de moda ter gerado dezenas de queixas formais feitas por cidadãos da capital francesa, que consideraram as imagens degradantes para o sexo feminino. Não só foi criticada a magreza extrema das modelos retratadas (numa ligação direta às preocupações sobre a prevalência de distúrbios alimentares e o mimetismo em grupos de risco – como as adolescentes), como a sua objetificação e a posição de submissão com que surgem nas imagens.

Podemos raramente parar para pensar nisto, mas é inegável que a constante desumanização de homens e, principalmente, de mulheres em imagens publicitárias, tal como a híper-estereotipação dos comportamentos que são esperados de cada género, são ambos caminhos perigosos que nos levam, de certa forma, a normalizar em praça pública atos e comportamentos que não são admissíveis. Como a aceitação da brutalização e da discriminação, por exemplo. Como diria Hélène Bidard, responsável pela pasta da luta contra a discriminação e a defesa dos direitos humanos na Câmara de Paris: “As consequências destas representações degradantes têm um importante impacto nas mulheres, especialmente nas mais novas. São imagens que nos levam a manter o machismo como padrão e que ajudam a trivializar uma certa forma de violência diária.”

Já há cerca de ano e meio, a entidade reguladora da publicidade do Reino Unido tinha considerado que era “irresponsável a escolha de imagens” de outra campanha daquela marca francesa, que na altura fotografara uma modelo com uma estrutura física “pouco saudável” (mais uma vez, a preocupação com os distúrbios alimentares, que todos os anos provocam mais de 7 mil vítimas mortais). A campanha acabou por ser banida, com base num código de publicidade instituído que define que todos os anúncios públicos têm de ser preparados com um sentido de responsabilidade para com os consumidores e com a sociedade em geral.

Isto continua a gerar muita controvérsia, como se se tratasse de censura pura e dura. A mim parece-me relativamente simples: idealmente, a autorregulação aconteceria, com o bom senso a prevalecer. Mas estamos longe de viver num mundo ideal, principalmente quando falamos de atos discriminatórios. Há quem considere que as imagens do mundo publicitário são uma forma de arte e que, como todos sabemos, a arte não tem, à partida, grandes limites. Cada um interpreta-a à sua maneira e a criatividade não merece espartilho. Mas por mais que até possa ter como base uma componente artística e estética, a publicidade – seja ela no universo na moda ou noutro qualquer - tem um intuito primordial, que é vender uma mensagem. E as marcas não se podem, nem devem, demitir da sua cota parte de responsabilidade social quando o fazem às massas, no espaço público.