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Expresso

Sim, há uma mama gigante no meio de Londres

2014, Inglaterra: Duas jovens mães bebem café numa cafetaria londrina com os seus bebés recém-nascidos. Quando uma delas decide amamentar o filho, um casal sentado na mesa ao lado chama-lhe “vadia” e “nojenta”, e argumenta que amamentar em público é ofensivo. 2015, China: Uma mulher dá de mamar ao seu bebé numa viagem de metro. Um homem fica afrontado com tal visão e decide tirar um fotografia às escondidas, que acaba por publicar nas redes sociais com a legenda: “Deixa-me lembrar-te de uma coisa - isto é uma carruagem de metro de Pequim, não é o autocarro lá da tua aldeia”. 2016, Argentina: Uma mulher amamenta o seu bebé, sentada numa praça. Duas polícias dirigem-se a ela e ameaçam prendê-la caso não tape a mama. Quando questionadas sobre a legalidade de tal ameaça, arrastam a mulher e o recém-nascido à força. Estes são apenas três exemplos distintos, ocorridos em países de diferentes partes do mundo, que deram muito que falar nos últimos três anos. Em 2017, a realidade é esta: a amamentação em público continua a ser um bicho de sete cabeças, apontado por muita gente como uma verdadeira afronta à moral e aos bons costumes.

A pensar nisso, para assinalar o Dia da Mãe (que em Inglaterra foi celebrado no passado fim de semana), a agência criativa Mother London instalou uma gigante mama insuflável no topo de um edifício de Shoreditch. Uma provocação com uma mensagem que podia ser dedicada ao mundo inteiro: “É inacreditável que em 2017 a mães do Reino Unido ainda se sintam observadas e julgadas quando amamentam em público. Esta é uma celebração do direito de todas as mulheres em decidirem como, e quando, devem alimentar as suas crianças sem se sentirem culpadas ou envergonhadas pelas suas decisões parentais.”

Esta iniciativa da agência londrinha faz parte da campanha #freethefeed (em português, qualquer coisa como “libertem a alimentação”), que anda agora a correr as redes sociais. Aliás, nos últimos anos as redes sociais têm sido palco de diversos movimentos públicos de desmistificação da amamentação pública, como foi o caso das brelfies, muito enfatizadas por celebridades como Gisele Bundchen ou Gwen Stefani.

Tal como tinha referido por aqui há uns meses, parece-me altamente hipócrita que, numa altura em que imagens do corpo desnudo da mulher - mamas ao léu incluídas – continuam a servir para publicitar tudo e mais alguma coisa, alguém possa ficar com a susceptibilidade ferida ao ver uma mãe a dar de mamar num espaço público. Ou pior, acusá-la de estar a fazer algo com cariz erótico. Tal como as redes sociais como Facebook e o Instagram continuarem a considerar imagens do género como conteúdos apropriados. É simplesmente ridículo e altamente revelador da forma discriminatória e tacanha como continuamos a encarar algo tão básico.

Volto a frisar: ainda não sou mãe, mas tenha eu a sorte de ter leite quando o for, e tenciono pôr as minhas mamas de fora sempre que o meu bebé tiver fome. Num sítio confortável para ambos e não às escondidas numa casa-de-banho pública para não ferir susceptibilidades alheias. Não o farei orgulhosamente, mas sim naturalmente. Porque haverá algo mais natural na existência humana e animal do que o ato de sobrevivência que é uma fêmea amamentar a sua cria?