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Expresso

Portugal: 14 mulheres agredidas por dia

Os últimos números apresentados pelo relatório anual da Associação de Apoio à Vítima não nos podem deixar indiferentes: mais de 35 mil pessoas pediram ajuda a esta associação em 2016. Quando é traçado o perfil da vítima em Portugal, voltamos a perceber quem são os maiores alvos de agressões: 82% dos pedidos de ajuda foram feitos por mulheres, com uma idade média de 50 anos. As contas mostram que, em média, há 14 mulheres vítimas de agressões por dia, o que dá um total de 100 mulheres por semana.

No ano passado houve mais mil pedidos de ajuda do que em 2015. A percentagem de vítimas do sexo masculino subiu no último ano, o que não significa que os crimes tenham aumentado, mas, sim, que finalmente começam a estar menos escondidos, o que se traduz num número de pedidos de ajuda feitos à APAV. Tal como os crimes praticados contra idosos, o segundo perfil de vítima mais afetado em Portugal. No total, foram apoiadas pela associação 5226 mulheres (em média, 100 por semana), 1009 idosos (19 por semana), 826 crianças e jovens (16 por semana) e também 826 homens (16 por semana).

Olhando para o número total de crimes, foram contabilizados pela APAV mais de 21 mil, sendo que 77% desses casos eram referentes a maus-tratos físicos e psíquicos em contexto de violência doméstica. As mulheres continuam a ser as mais afetadas. Uma realidade transversal, que está bem longe de ser um problema exclusivo a realidades familiares pautadas pelas dificuldades económicas, pelas dependências ou pela pouca escolaridade. Aliás, quanto a este último item, os dados da APAV apontam para uma maioria das vítimas com ensino superior. Sei que já o disse por aqui, mas repito: a violência doméstica é um problema comum às diferentes zonas do nosso país, extratos sociais, graus de formação académica, etnias e idades. Até no namoro temos visto números assustadores relacionados com agressões físicas e psicológicas entre adolescentes e jovens adultos.

A maioria dos casos acontece em contexto de intimidade

Ao ler este relatório, há algo que realmente não nos pode passar ao lado no meio de tantos números: uma larguíssima percentagem deste casos aconteceu em contexto de relações de intimidade, debaixo do teto partilhado por vítima e agressor, com um tipo de família nuclear com filhos. Mais de 80% do agressores eram pessoas do sexo masculino.

Ainda na semana passada todos lemos e ouvimos histórias de horror ocorridas em Portugal, com mulheres assassinadas às mãos de quem, supostamente, um dia as amou e com quem partilharam a vida. Tal como essas mulheres que perderam a vida, uma boa percentagem das vítimas presentes neste relatório foi alvo de agressão continuada e, mesmo pedindo apoio à APAV, muitas preferiram não o fazer às autoridades (mais de 40%). Sinais claros de quão aceite e escondida a violência doméstica continua a ser na nossa sociedade, quão difícil pode ser exigir justiça e quão pouco digna é ainda a forma como tantas pessoas são tratadas nesse processo.

Como referia Daniel Cotrim da APAV em entrevista à Lusa, “não se pode continuar a recorrer às casas de abrigo como uma espécie de depósito para colocar situações que não se sabe muito bem o que fazer com elas. Se achamos que um individuo é perigoso, que pode matar aquela mulher, não vale a pena enviá-la para uma casa de abrigo, mas que se prenda preventivamente aquele homem”. E levantou uma questão deveras pertinente: porque é que continuamos a “optar por fazer uma mulher perder o emprego, sair da sua casa, quebrar as relações afetivas e emocionais com o sítio onde está, os seus filhos terem de abandonar a escola e terem de recomeçar tudo do zero, num sítio onde não conhecem, quando muitas vezes, se calhar, a aplicação correta e imediata de medidas de proteção e de coação poderiam ser o suficiente”.

Pensando em tudo isto, vamos mesmo continuar a assobiar para o lado ou vamos perceber, em conjunto, que temos um problema entre mãos que deve ser travado com urgência?