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Expresso

Mulheres que sabem a leite e mel

Será possível falar de temas amargos como limão com a doçura de uma colher de mel? Ou abordar, sem rodeios, realidades traumáticas e desconcertantes com a calma e o conforto semelhantes aos que uma chávena de leite quente nos proporciona em dias de inverno? Eu achava que não, até me ter sentado a ler o livro “Leite e Mel” numa tarde de chuva. O que encontrei foi um retrato totalmente arrebatador sobre o que é nascer-se mulher nos dias de hoje – e nos de ontem também.

Excerto do livro "Leite e Mel" editado pela Lua de Papel

Excerto do livro "Leite e Mel" editado pela Lua de Papel

Rupi Kaur é uma poetisa de 24 anos, nascida na Índia e criada em Toronto, que cresceu divida entre as influências desses dois mundos que, embora distintos, se cruzavam tantas vezes nos desafios enfrentados pelo sexo feminino. Como escreve a própria autora, “esta é uma história de sobrevivência através da poesia”, um livro sobre “a dor, o amor, a separação, a cura”, onde não falta “sangue, suor e lágrimas” ao abordar-se os mais variados temas que nos levam de encontro à discriminação de género: objetificação do corpo da mulher, menosprezo pelo papel feminino na sociedade, educação diferenciada entre meninos e meninas, abuso infantil, estereótipos irreais de beleza, violência familiar e em relações de intimidade, assédio e abuso sexual, repressão do prazer. Tudo isto em formato poético, acompanhado por ilustrações feitas igualmente pela autora.

 Excerto do livro "Leite e Mel" editado pela Lua de Papel

Excerto do livro "Leite e Mel" editado pela Lua de Papel

Instigada desde pequena pela mãe a expressar-se através das artes, Rupi Kaur encontrou na escrita e na pintura duas formas de libertação da opressão que sentia ao crescer entre mulheres que não que muitas vezes não tinham sequer direito à sua opinião ou ao livre arbítrio. O amor pelas palavras levou-a mais tarde a estudar retórica na universidade de Waterloo, onde o seu trabalho rapidamente se fez notar. Mas foi nas redes sociais que encontrou notoriedade.

A sua conta de Instagram, onde partilha pequenos poemas, ilustrações e fotografias que são verdadeiros desafios à reflexão, conta hoje com mais de 1 milhão de seguidores. Muitos deles descobriram-na quando se tornou viral graças à polémica experiência que fez com uma imagem onde aparecia de costas, com uma mancha de menstruação nas calças de pijama. Quando partilhou esta foto, comentários como “És nojenta!" ou "Isto é grotesco!" foram respostas que não se fizeram esperar. E a própria rede social alinhou na censura, acabando por banir a imagem. Na altura, a artista chamou à atenção para quão irónico é que tanta gente fique incomodada com uma imagem que remete para um processo biológico natural do corpo feminino, mas que a objetificação do corpo feminino não tenha o mesmo efeito. Ou que imagens de cariz violento, com sangue ou armas, não sejam tabu, mas que o sangue menstrual seja considerado inapropriado.

Para além deste teste à hipocrisia vivida nas redes sociais, a feminista Rupi Kaur foi-se tornando famosa entre os fãs dos seus poemas. Muitos perguntavam-lhe onde podiam comprar o livro, mas o livro ainda nem sequer existia. E foi com esse incentivo que decidiu fazer uma pequena edição por conta própria. O sucesso foi tão grande que o mundo editorial acabou por abraçar a obra e hoje, já vai mais de um milhão de exemplares vendidos.

“Leite e Mel” chegou recentemente a Portugal e é um livro que se devora. Mas serão poucos os que por ele conseguirão passar sem ficarem com a sensação de ter levado um murro no estômago. Muitas vezes questionam Rupi Kaur se aquilo que relata nos seus poemas é autobiográfico, mas a resposta é simples: não. Contudo, garante que todo aquele sofrimento, raiva, melancolia, doçura e pacificação que transmite com as suas palavras é bem real. É a vida que a rodeia, a das muitas mulheres com que se cruzou ao longo da sua. É o seu entendimento de um mundo que continua a ser especialmente cruel para as mulheres. Algo a que não podemos ficar indiferentes.

Esta, foi a maneira que Rupi encontrou para o descrever.