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Expresso

Mulheres vivem mais, mas têm menos qualidade de vida 

“Não será possível alcançar o desenvolvimento humano se metade da humanidade é ignorada. A desigualdade de género e a falta do empoderamento das mulheres é um desafio ao progresso global em todas as regiões e grupos do mundo”. A mensagem é clara e consta do mais recente relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), apresentado ontem. Muitas vezes oiço e leio por aqui que isto da desigualdade de género não passa de um mito. Olhar para este documento – que explica as razões que levam a que alguns grupos mais vulneráveis vão ficando recorrentemente prejudicado no que toca ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – pode dar uma ajuda. E quem nasce com o sexo feminino continua a fazer dos ficam para trás.

Este relatório identifica claramente “as barreiras de género que negam a muitas mulheres as oportunidades e a capacitação necessárias para realizarem o pleno potencial de suas vidas”. Entre aquilo que a ONU chama de “obstáculos ao universalismo” estão factores como violência, discriminação e exclusão, normas e valores sociais, preconceito e intolerância. Uma das conclusões é bastante reveladora: “Em todas as regiões, as mulheres têm uma esperança de vida mais longa do que os homens. No entanto, em todas as regiões, as mulheres têm consistentemente, em média, um menor IDH do que os homens.”

O documento mostra que algumas das maiores desigualdades vão de encontro ao casamento forçado e à dificuldade de acesso à educação, ambos com efeitos a longo prazo sobre as capacidades e oportunidades do sexo feminino. Não nos podemos esquecer que todos os anos mais de 15 milhões de meninas são forçadas a casar e que 50 milhões são privadas de ir à escola. Tudo isto tem consequências nefastas na independência financeira na fase adulta, no acesso ao mercado laboral, na possibilidade de subida a posições administrativas e políticas, com resultados claros no que toca a propensão à pobreza e maior vulnerabilidade à violência extrema, dentro e fora de casa, incluindo o tráfico de seres humanos. Aliás, o relatório aponta a violência como “um dos mecanismos mais diretos de exclusão”.

Casa Vs Carreira: “As mulheres ainda têm de fazer malabarismos”

Outro dos pontos focados neste relatório são as normas sociais que em muitos países reduzem as escolhas e oportunidades de mulheres e meninas, que normalmente são responsáveis por mais de três quartos do trabalho familiar não remunerado. “As mulheres ainda têm de fazer malabarismos para conciliar emprego remunerado fora de casa e trabalho de cuidados não remunerados dentro da casa, bem como equilibrar os seus papéis produtivos e reprodutivos”. Em muitas sociedades, o sexo feminino é igualmente discriminado em relação aos bens, tal como no direito à terra e à propriedade. “Como resultado, apenas 10 a 20% dos proprietários de terras nos países em desenvolvimento são mulheres.”

Além de explicar as razões para as discrepâncias de IDH entre géneros e outros grupos vulneráveis, este relatório da ONU aponta também políticas e estratégias nacionais e globais necessárias para que no futuro se consiga alcançar as populações atualmente excluídas. Uma das alíneas que dá que pensar: “Investir em meninas e mulheres tem benefícios multidimensionais. Por exemplo, se todas as raparigas nos países em desenvolvimento concluíssem o ensino secundário, a taxa de mortalidade dos menores de cinco anos seria reduzida para metade”.

Mesmo nas sociedades mais desenvolvidas, o relatório aponta a necessidade de se incentivar e apoiar o sexo feminino a desenvolver carreiras na ciência, tecnologia, engenharia e matemática, áreas ainda muito associadas aos homens e cuja “demanda futura para o trabalho de alto nível será elevada”. Sem esquecer a importância do fim da discriminação “nos mecanismos de seleção e recrutamento”, o relatório chama também à atenção para a importância das quotas de representação feminina nos setores públicos e privados, frisando que “embora rachado em muitos lugares, este teto de vidro está longe de se partir”.

É precisar perceber que estamos longe de viver num mundo onde se possa falar de índice de desenvolvimento humano sem focarmos a discriminação de género, algo que ainda é tão latente em todas as regiões do globo, mesmo que com diferentes realidades. Uma coisa é certa, e este relatório que vos aconselho a espreitar deixa bem clara. “O desenvolvimento humano diz respeito às liberdades humanas: liberdade para realizar todo o potencial de cada vida humana, não apenas de alguns, nem da maioria, mas sim de todas as vidas, em todos os cantos do mundo. Agora e no futuro”. É isto.