Siga-nos

Perfil

Expresso

O lugar da mulher que é mãe é em casa? 

Foi há dois dias que o ministro da Saúde do Brasil, Ricardo Barros, fez um discurso público sobre a importância do combate à obesidade infantil. Um tema pertinente, e que realmente carece de maior atenção dos decisores políticos, além de implementação de medidas concretas que travem um problema que a OMS considera ser uma “armadilha explosiva nos países em desenvolvimento”. Para perceberem melhor, nos últimos vinte anos – basicamente, o apogeu da comida processada – o número de crianças obesas com menos de cinco anos julgo que subiu de 31 para 41 milhões. Que o ministro em causa queira combater isto, muito bem. Mas o que não me parece mesmo nada correto é que mencione a falta de tempo das mães para estarem na cozinha com os filhos como uma das causas para que tal problema esteja a acontecer.

Palavras públicas do ministro Ricardo Barros: “Eu queria falar um pouco do facto de a criança não saber cozinhar. As mães não ficam em casa e as crianças não têm a oportunidade de acompanhar, como era antigamente, a mãe nas tarefas diárias, na preparação dos alimentos. E isso vai ficando cada vez mais distante, a capacidade de pegar um alimento natural e de o saber consumir”. Neste seu discurso, o papel do pai nunca foi referido. Mas quanto à figura materna, ainda voltou à carga, salientando a importância da presença da mãe no dia-a-dia: “Isso vai permitir que as crianças sejam orientadas nessa questão da alimentação, no exercício físico e a qualificar a manipular os alimentos. Muitas delas não ficam em casa com suas mães e não têm a oportunidade de aprender a descascar os alimentos".

A educação das crianças não é responsabilidade exclusiva das mães

Numa análise muito rápida, aqui ficam algumas das mensagens subentendidas implícitas neste discurso: as mães deviam ficar mais tempo em casa para educar os filhos; o tempo dedicado à carreira é, portanto, um entrave à sua capacidade de educar e acompanhar os filhos; é suposto a mãe estar na cozinha e saber cozinhar; educar as crianças, fomentar melhores hábitos alimentares, estimular para prática de exercício físico e dar o exemplo em casa é uma tarefa, acima de tudo – senão exclusiva -, da figura materna; resumindo, a culpa das crianças estarem a ficar obesas é da falta de atenção dada atualmente pelas mães.

Noutra análise muito rápida, surge-me uma pergunta que me parece tão básica quanto essencial: então e onde fica a figura paterna no meio disto tudo? Não percebo, sinceramente. Se seguirmos a linha de pensamento deste ministro – que deveria olhar para os cidadãos sem fazer diferenciação de género (salvo parcas exceções) quando aborda as suas responsabilidades e/ou papéis na parentalidade – o papel da mulher deveria ser ficar em casa, enquanto cuidadora do seio familiar, a sua eterna tarefa e domínio aos olhos da sociedade. Quanto ao homem, é alienado dessa responsabilidade, o que me parece totalmente inaceitável e discriminatório para ambos. Quão redutor é para os homens serem demitidos de qualquer papel ativo em relação aos hábitos, saúde e desenvolvimento dos seus filhos? E quão redutor, castrador e pesado é a mulher ter o ónus de tudo isto exclusivamente em cima dos seus ombros?

Pensar antes de falar é preciso. Cada vez mais.