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Expresso

A plenitude do machismo exposta numa única foto 

A estátua em bronze da “Menina sem Medo”, a enfrentar o emblemático touro de Wall Street, tem feito as delícias do mundo desde as celebrações do Dia Internacional da Mulher. Com cabelo a esvoaçar, mãos na cintura e expressão de desafio, esta estátua de bronze pretende simbolizar a necessidade de valorização da força feminina num universo profissional – e nacional – que está longe de cumprir os limiares da igualdade de género. E se dúvidas havia sobre a necessidade de continuarmos a usar este tipo de instalações como uma forma de tentar espalhar a mensagem de paridade, a fotografia que serve de mote a este texto explica-nos exatamente porque é que ainda o temos de fazer.

Quinta-feira à noite: sem qualquer pudor, um homem engravatado, na companhia de outros homens, decide simular relações sexuais com a menina de bronze. Ele diverte-se naquela sessão grotesca de escárnio, os amigos aplaudem e incentivam. Pelo meio, uma mulher tira uma fotografia do ato, publica-a no Facebook e a imagem torna-se viral. Porquê? Porque é um exemplo claro e altamente simbólico de como as atitudes machistas estão tão presentes e enraizadas na nossa sociedade.

Podíamos achar que não passa de um tipo a fazer uma brincadeira de mau gosto, totalmente inocente e inconsequente. Essa continua a ser a resposta fácil, mas que compactua precisamente com o estado enraizado da misoginia no nosso mundo. Mas depois podemos olhar para isto com pensamento crítico e tentar perceber tudo o que está implícito naquele ato grosseiro e ofensivo. E o que vamos ver não é bonito, é, assim, inquietante e tem o condão de nos deixar a refletir.

Comecemos pelo mais grave e que é óbvio: um homem simula que está a ter relações sexuais com uma menina. Isso mesmo, sexo com uma menina, em praça pública. Um homem que, perante uma figura feminina que simboliza a mensagem da igualdade de género, tenta subjugá-la através da superioridade da força corporal. Um homem que violenta fisicamente uma figura feminina e que se ri desse ato com expressão de escárnio, orgulho e glória. Um homem que ao ver uma figura feminina que desafia o habitual papel de submissão da mulher em sociedade, humilha-a, desvaloriza-a, desrespeita-a, ridiculariza-a, menospreza-a e agride-a, em jeito de castigo. Reduzindo-a a um objeto de prazer sexual do homem, mesmo sendo uma criança. E que é aplaudido e incentivado pelos amigos que observam, sem intervir.

Devemo-nos rir disto? A mim não me dá qualquer vontade de rir e tenho dificuldade em perceber porque é que alguém há de achar que isto tem imensa piada. Tal como também me parece altamente redutor para uma boa percentagem dos homens deste planeta que digam que isto só acontece porque, bem, “boys will be boys”. Desculpem-me, mas não, os homens não são todos assim. Atitudes como esta não são aceitáveis e não nos deviam deixar com vontade de rir, até porque tem uma mensagem bem clara por trás: o machismo está vivo e de boa saúde, embora não se recomende. E todos temos a perder com isso.