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Expresso

O assédio sexual é assim que soa 

Ontem, nove da manhã num bairro pacato do centro de Lisboa. Decido aproveitar as temperaturas mais altas para usar um vestido e é com as pernas descobertas do joelho para baixo que vou passear a minha cadela. Cem metros depois, um homem aproxima-se de mim e diz a seguinte frase: “Começa o calor e elas já andam com a carne à mostra. Eu sei o que te fazia”. De acordo com a eterna confusão entre assédio e piropo, eu deveria sentir-me lisonjeada com tal comentário? Ou será que todos estamos de acordo quanto ao facto de tais palavras serem abusivas, ofensivas e uma invasão à minha liberdade no espaço público?

Terra Lopez é uma artista plástica norte-americana que decidiu dar uma ajuda tremenda na resposta a esta questão. Como? Através de uma fabulosa instalação artística interativa, que confronta os seus visitantes com frases reais ouvidas diariamente por mulheres do seu país. Muitas delas proferidas por estranhos em pleno espaço público, mas também em contexto de mercado laboral. O resultado é uma desconcertante compilação áudio das mais variadas formas de assédio, que foi inaugurada no mês passado em Sacramento, sob o título “This is What it Feels Like”.

A ideia e a vontade de Terra Lopez em fazer uma instalação com cariz educativo vem desde os seus tempos de adolescência, quando ao sair do liceu foi assediada por um homem mais velho, que depois a seguiu até casa. O desconforto, o nojo e o medo que sentiu na altura marcaram-na para sempre. Ao longo da sua vida, tal como a larguíssima maioria das mulheres, Lopez acabou por se habituar a ter de conviver com comentários inapropriados e abusivos, como se fossem um mal menor, algo com que simplesmente temos de saber lidar. Situações que não são fáceis de explicar a quem não passa por elas. Hoje, com mais de 30 anos, decidiu que estava na altura de ajudar o mundo masculino a compreender melhor como é ter de ouvir este tipo de comentários e gerir as emoções que eles nos provocam.

Dez homens foram convidados a dar voz às muitas frases compiladas em entrevistas feitas a mais de cem mulheres que revelaram as situações de assédio de que foram alvo ao longo das suas vidas. Algumas até podem – erradamente - parecer inofensivas, como o cliché do “queres namorar comigo”, proferido por um perfeito estranho. Mas o grau de intensidade das frases vai aumentando, tal como o grau de desconforto provocado pela experiência. Frases como “que belas mamas”, “fodia-te toda” ou até mesmo “devia violar-te” fazem parte desta instalação, que mais do querer dar voz ao que mulheres de todo o mundo ouvem, amiúde, no seu dia-a-dia, pretende ser um verdadeiro serviço educativo para rapazes e homens.

Em menos de um mês, mais de 30 mil pessoas foram à exposição, o que é muito bom sinal. Até porque esta não pretende apontar o dedo a ninguém, mas sim ser um experiência sensorial esclarecedora. A verdade, é que mesmo com a lei a dizer que tais atos merecem punição, o assédio continua a ser desvalorizado tanto em países subdesenvolvidos, como desenvolvidos. Acontece debaixo do nosso nariz, às nossas mães, filhas, amigas, irmãs. Diariamente, vezes demais e desde idades em que uma mulher ainda não é mais do que uma menina sem capacidade para perceber a dimensão do que lhe está a ser dito. Ouvir frases destas desde tão cedo compromete a nossa desinibição a longo prazo no que toca, por exemplo, à participação no espaço público. Ameaça a nossa liberdade pessoal e a nossa dignidade, compromete a nossa capacidade de autossegurança e definitivamente muda o nosso comportamento perante o mundo masculino.

Pensem nisto: se for a vossa filha adolescente a ter de ouvir um homem adulto a dizer-lhe “fodia-te toda” continuam a achar que isto é algo que deve ser ignorado? Se for a vossa mãe, irmã, mulher, namorada ou amiga a ir na rua e a ouvir algo como “eu sei o que fazia com essas mamas” continuam a achar que isto não tem impacto na vida de quem o ouve? Que não é uma tremenda falta de respeito? Um ato abusivo? Banalizar o assédio não é um caminho viável, mas educar a sociedade para os seus efeitos nefastos, sim, parece-me uma excelente ideia. Espero que esta instalação corra o mundo brevemente.