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Expresso

O intuito do Dia da Mulher não é oferecer flores

O Dia da Mulher tem muitos significados, mas oferecer flores, chocolates ou jantares fora não é certamente o seu intuito, aliás, consegue ser até bastante ofensivo. Basta pensar na sua origem, relacionado com a luta feminina por melhores condições de trabalho, nos finais do séc. XIX e início do séc. XX, para percebermos isto. Muito tempo passou desde esses protestos, mas o dia 8 de março continua, acima de tudo, a ser um dia de luta. Uma data que apela à reflexão, indignação e protesto, tanto a nível económico, como político, cultural e social contra a desigualdade de género que pauta diariamente a vida em sociedade mundo fora. Um mundo que continua a não perceber que sociedades mais pares são sociedades mais justas e equilibradas. E que todos nós, homens e mulheres, temos muito a ganhar com isso.

Depois da Marcha das Mulheres, que fez história há pouco mais de um mês, hoje a mulheres do mundo estão convocadas para um greve global que visa chamar a atenção do mundo para questões como a misoginia, a discriminação de género, a violência contra as mulheres, o assédio sexual, o ataque aos direitos sexuais reprodutivos e a desigualdade económica e social. Por cá, esta semana está a ser marcada por inúmeras ações um pouco por todo o país, onde os obstáculos à vida da mulher na sociedade são analisados e questionados. Conferências, workshops, fóruns, lançamentos de livros, apresentações de dados oficiais sobre discriminação de género: o país parece fervilhar em termos de discussão sobre a importância da igualdade. Contudo, ao mesmo tempo há ainda muita gente que continua a não perceber porque é que este debate público, estas marchas de protesto e estas greves gerais são necessárias e porque é que todos nós – homens e mulheres – devemo-nos juntar a elas. Nos próximos parágrafos, vou tentar dar uma ajuda rápida.

Só em 2186 a igualdade de género será uma realidade mundial Os dados são públicos e chegam de diferentes organizações respeitadas, como, por exemplo, as Nações Unidas, a Organização Mundial de Saúde ou a Comissão Europeia: a anulação dos direitos universais mais básicos do sexo feminino e as diversas formas de violência contra a mulher continuam a ser um verdadeira epidemia mundial. Por exemplo, 35% das mulheres de todo o mundo são alvo de violência física ou sexual em algum momento das suas vidas, a maioria no contexto das suas relações de intimidade. Muito a lei e a justiça têm evoluído neste sentido, mas também temos visto alguns retrocessos, como na Rússia, onde a violência doméstica foi recentemente despenalizada. Continuamos a ter muitos países onde, em pleno 2017, as mulheres ainda não têm livre arbítrio para tomadas de decisão nas suas vidas e onde dependem da autorização do marido ou do pai para coisas tão simples como abrir uma conta bancária, conduzir um automóvel ou fazer uma viagem.

São também ainda tantos os países onde os maridos podem, legitimamente, agredir a mulher, onde os supostos crimes honra são aceites, onde meninas e mulheres podem ser casadas à força, onde se acha aceitável vender uma filha como se fosse uma mercadoria e onde meninas são repetidamente violadas no contexto de casamentos arranjados, regra geral, por homens com mais do dobro da sua idade. A dimensão do casamento forçado de menores é angustiante: todos os anos, 15 milhões de meninas e adolescentes são obrigadas a casar. Para terem melhor noção, são 28 meninas por minuto (façam a conta).

Em jeito de troféu, as mulheres continuam a ser violadas em massa em contexto de guerra, o tráfico de mulheres e meninas mantém números globais inenarráveis, seja em países desenvolvidos como subdesenvolvidos, e o acesso à educação também permanece uma miragem para milhões de meninas, para ser mais específica, 50 milhões. As Nações Unidas lembra que pelo menos 200 milhões de meninas, raparigas e mulheres foram vítimas de mutilação genital. Em inúmeros países, o aborto continua a ser proibido e os ataques ao direito da mulher de decidir sobre o seu próprio corpo e a maternidade continuam a crescer, por mais discussão pública que exista em torno deste tema. A conduta das mulheres continua a ser questionada por coisas tão simples quanto a roupa que usam, as vítimas de violação ainda são menosprezadas aos olhos da lei e o assédio é desvalorizado, como se fosse um mal menor com o qual temos de lidar.

Analisem, indignem-se, debatam, protestem, unam esforços Dados das Nações Unidas continuam também a mostrar que as mulheres têm mais dificuldades em entrar no mercado laboral e que estão mais sujeitas a situações de desemprego, independentemente das suas qualificações. A diferença salarial entre homens e mulheres ronda, em média, 23%, e são também elas quem mais condiciona a atividade profissional e a carreira por razões familiares, além de serem quem tem a seu cargo, diariamente, mais trabalho não remunerado. Tudo isto se traduz numa enorme desigualdade profissional e económica a longo prazo (incluindo as aposentadorias, por exemplo), com consequente situação de maior vulnerabilidade. Estes são dados globais, mas, especificamente sobre Portugal, ainda ontem eram divulgados números que nos devem deixar a pensar: para ter o mesmo ordenado que um homem, a mulher tem de trabalhar mais 61 dias no ano.

Os exemplos atrás descritos são apenas a ponta do icebergue e as estimativas apontam que só em 2186 a igualdade de género venha a ser uma realidade mundial. Sim, leram bem: 2186. Nem sequer os meus netos viverão essa realidade. Posto isto, talvez percebam melhor que não é a oferecer chocolates e flores, ou a convidar para jantar fora as mulheres das vossas vidas que esta realidade vai mudar. Ofereçam antes o vosso empenho em alterar o rumo destas múltiplas situações discriminatórias. Informem-se, analisem, indignem-se, debatam, protestem, unam esforços. Só assim a mudança acontece.