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Expresso

A Emma Watson não é hipócrita

Só chega amanhã às bancas, mas nas últimas 48h a edição que se segue da Vanity Fair já está a dar que falar. Porquê? Porque numa foto entre pelos menos mais 10, Emma Watson - atriz, ativista, embaixadora das Nações Unidas e feminista convicta – revela o contorno das mamas (já sabem, eu acho sempre que devemos chamar as coisas pelos nomes, sem pudores). E porque é que isso é um problema? Segundo a crítica, se Watson defende a igualdade de género com unhas e dentes então não passa de uma hipócrita por revelar parte do seu corpo numa sessão fotográfica. Meus senhores e minha senhoras, lamento: isso não faz qualquer sentido.

Num universo onde a imagem do corpo feminino desnudo é usado ao desbarato, julgo que o que é bastante hipócrita neste caso é, mais uma vez, tendermos a querer ditar o que é que uma mulher pode ou não pode revelar do seu corpo. Que eu saiba, isso é uma escolha que deve ser individual, além de que não existe propriamente um dress code feminista, nem tampouco roupas proibidas. Liberdade e igualdade de escolha entre géneros, é esse um dos pilares do feminismo. Que numa sessão fotográfica, nitidamente com teor artístico, a ativista decida, por vontade própria, mostrar as mamas, é uma coisa. É a opção dela, não é uma imposição bem ao género do “ou há nudez ou então não apareces”. Ser forçada a fazê-lo é outra coisa totalmente diferente.

Em toda esta sessão fotográfica, uma coisa é certa: em nenhum momento me parece que o conteúdo ou até mesmo a publicação desta entrevista dependa da exposição daquele simples contorno das mamas. Optar por fazê-lo, é mais uma vez reforçar que as mulheres têm direito, por opção própria, à sensualidade e à sexualização da sua imagem. Mais uma vez: se assim o desejarem. O que é bastante diferente de ter a banalização da nudez e a sexualização de um corpo como ponto de partida para vender uma ideia ou produto, que nada tem a ver com sexo – que é o que acontece tantas e tantas vezes.

Neste bate boca, há quem vá buscar as declarações de Watson feitas numa entrevista que deu aos 18 anos, onde dizia que não se sentia confortável a mostrar o corpo e que no tocava a roupa “mais era menos”. Felizmente, uma das coisas boas do crescimento pessoal é termos espaço para mudar. O que não passa por perder valores, mas sim por processos como amadurecer a nossa auto análise do mundo (que aos 18 dificilmente será a mesma que aos 26), entender e aceitar que é saudável mudar de opinião ao longo da vida, ganhar auto confiança para se fazer escolhas independentes, quebrar preconceitos, aceitar o corpo, desmistificar ideias pré-concebidas enraizadas pela educação a que fomos sujeitos ou defender aquilo em que se acredita. Se hoje em dia Emma Watson se sente bem com a sua imagem corporal, com a sua sexualidade, sensualidade e com as suas escolhas, o que há de hipócrita nisto? Não percebo em que medida se pode achar que isto é uma contradição do feminismo.

Emma Watson não é uma galdéria por causa desta foto, tal como eu não sou uma oferecida por fazer topless na praia ou por gostar de usar decotes acentuados. E se alguém acha isso então estamos mesmo muito mal. Revelar o corpo por opção, em determinado momento ou situação, não é banalizá-lo, não é fazer um convite sexual ao mundo, nem muito menos abrir um precedente, como se fosse dada uma luz verde para se achar que a partir dali o temos de fazer a toda a hora, e perante qualquer pessoa, quer queiramos quer não. Os limites do quanto se quer mostrar, quando se quer mostrar, quantas vezes se quer mostrar e a quem o queremos fazer não dependem de mais ninguém a não ser de nós próprios. Feminismo, meus senhores e senhoras, é isto. E Emma Watson sabe-o bem.