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Expresso

Em nome da filha, por todos nós

”Era estalos, murros, pontapés, puxões de cabelo... Mandava-me contra a parede... Uma vez chapou-me na cama e pôs-se a andar em cima da minha cara com os pés (...). No dia seguinte perguntava-me onde é que eu tinha arranjado aquelas marcas e dizia que não tinha sido ele. (...) Os maus tratos eram exibidos como troféus. Estava sempre a insistir para que eu saísse à rua com ele, mesmo marcada””.

Aurora é portuguesa e faz parte dos grossos números de casos de violência doméstica que acontecem no nosso país. A sua dura história faz parte dos vários relatos reais e anónimos descritos no imperdível livro “Em Nome da Filha”, da autoria de Carla Maia da Almeida, que foi lançado esta semana pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Não me canso de repetir isto por aqui: ao contrário do que muita gente ainda pensa, este não é um problema exclusivo a realidades pautadas pelas dificuldades económicas, pelas dependências ou pela pouca escolaridade. A violência doméstica é um problema transversal às diferentes zonas de país, extratos sociais, graus de formação académica, etnias e idades. Até no namoro temos visto números assustadores relacionados com agressões físicas e psicológicas entre adolescentes e jovens adultos.

Como a sinopse deste livro tão bem relembra, o último relatório da Organização Mundial de Saúde revela a proporção desmedida que a violência doméstica atingiu no mundo inteiro: uma em cada três mulheres é vítima de agressões físicas, psicológicas e sexuais, pelo simples facto de ser mulher. Em tempos o “El País” considerou-a “uma pandemia devastadora”. Melhor descrição, impossível.

Espero que a autora não se zangue por eu reproduzir aqui esta sua reflexão sobre o tema, mas prefiro que leiam as palavras dela do que repetir mais uma vez as minhas: “A violência doméstica sempre existiu. Escondida entre quatro paredes, abafada pelo peso moral da família e da Igreja, protegida dos olhares por sentimentos dúbios de honra e vergonha. Não é fácil admitir que os mais íntimos se transformam em carrascos. Quando a casa não é um lugar seguro as relações afetivas potenciam o lado negro do ser humano. Não é fácil descobrir que há monstros debaixo da cama. Acordam ao nosso lado todos os dias. Famintos de qualquer coisa que é sempre o contrário do amor”. É isto.

“A violência doméstica é uma armadilha e todos nós podemos cair nela”

Em Portugal, a violência doméstica passou ser considerada crime de natureza pública em 2007. E ao contrário do que se possa pensar, até estamos entre os países pioneiros nesta temática, uma vez que são poucos os que já possuem uma lei específica para este crime. Contudo, a realidade nacional continua a ser devastadora e os números simplesmente não baixam (só em 2015 foram registados 26141 casos), por mais campanhas e ações de sensibilização que sejam postas em curso. Este livro, dá voz a algumas dessas vítimas e é quase um dever parar para ler o que elas têm para contar.

Mais do que fazer a habitual banalização das histórias individuais de mulheres que passaram por situações extremas de violência dentro de relações de intimidade, este livro dignifica os seus percursos. Mostra quão aceite a violência doméstica continua a ser na nossa sociedade, quão difícil pode ser exigir justiça e quão pouco digna é a forma como tantas pessoas são tratadas nesse processo, onde ainda são as vítimas que têm de provar que são vítimas. E todos sabemos quão difícil pode ser reunir provas, até porque nem tudo se resume a nódoas negras no corpo. Mostra também o ciclo de culpa, medo e vergonha de quem sofre as agressões mais atrozes que se possam imaginar, mas também o do autoperdão e da coragem desmedida para quebrá-lo. E acima de tudo deixa um vislumbre de esperança, porque todas elas são histórias de sobrevivência e superação. Pelo meio, dados recolhidos entre organizações, associações e especialistas levam-nos a perceber melhor esta realidade.

Ler este livro não é só um murro no estômago (que é), mas também um abrir de olhos para uma realidade que definitivamente não acontece só aos outros. Como dizia Elisabete Brasil, da UMAR, durante a apresentação do livro, “a violência doméstica é uma armadilha e todos nós podemos cair nela”. Mesmo que à partida achemos que nunca nos vai acontecer a nós ou a quem nos rodeia.