Siga-nos

Perfil

Expresso

Um homem não chora (e outros sexismos)

Quando falamos sobre discriminação de género tendemos a pensar apenas em situações extremas de violência ou de diferenciação de tratamento. Mas esquecemo-nos frequentemente que o sexismo está no meio de nós, no nosso dia a dia, também de formas bastante subtis. Tão subtis que o desvalorizamos, sem parar para pensar que esses pequenos comportamentos, pensamentos e comentários discriminatórios contribuem, em muito para o perpetuar, de desigualdades baseadas no género. Um construção errónea do que é a igualdade entre sexos, que não só começa desde tenra idade, como é alimentada dentro do próprio seio familiar. A pensar nisso, surgiu a campanha “Isto também é desigualdade de género”, a primeira ação pública do movimento HeForShe Portugal, que finalmente chegou ao nosso país.

Promovido globalmente pelas Nações Unidas, este movimento tem como mote mudar a tradicional narrativa sobre a igualdade de género para uma narrativa mais inclusiva, numa tentativa de agitar consciências, provocar discussão pública e fazer-nos refletir em larga escala sobre a importância que igualdade de género tem no desenvolvimento de sociedades mais equilibradas. Cada país conta com uma equipa local, composta por pessoas que não estão diretamente ligadas às Nações Unidas, mas que abraçam o desafio de promover ações anuais nos seus países a partir de diretrizes daquela organização. Por cá, são já dez pessoas a fazê-lo (obrigada!) e o embaixador oficial – à semelhança de Emma Watson – é José Fidalgo. Porque é que alguém haveria de gastar o seu tempo pessoal a fazer isto? Porque como se pode ler na página oficial do movimento HeForShe Portugal, esta “não é apenas uma questão das mulheres, e sim um assunto de direitos humanos”. E todos temos a ganhar com isso no futuro.

O enfoque do HeForShe Portugal? Educar e reeducar

“Um homem não chora. Azul para meninos, cor de rosa para meninas. É ela que usa as calças lá em casa? Pareces uma menina a jogar à bola”. Estes são apenas alguns exemplos de pequenos sexismos do dia a dia, retratados na tal campanha do HeForShe Portugal, que desafia os visitantes da sua página de Facebook a partilharem frases que espelhem a desigualdade de género. Em pouco segundos, ocorrem-me uma série delas. Ditas às mulheres e meninas: És uma Maria rapaz. Deves estar naqueles dias do mês. Não é bonito uma mulher dizer palavrões. Ele ajuda-te em casa? Bebes muito para uma mulher. Ditas aos homens e meninos: Não seja maricas. Os meninos não brincam com bonecas. Ela ganha mais do que tu? És tão sensível para um homem. Podíamos simplesmente olhar para este tipo de comentários como algo inofensivo, mas é preciso ir mais longe e tentar perceber a carga discriminatória que existe por trás deles. Quebrar este ciclo de discriminação subtil, tão enraizado na nossa sociedade, é uma tarefa de todos nós.

Se pensarmos em todas as grandes e pequenas manifestações públicas que aconteceram no último ano, é fácil perceber que a sociedade civil despertou finalmente para importância desta discussão. Ainda há muita gente que não percebe sequer o significado de palavras como ‘feminismo’ ou ‘sexismo’, contudo, são também cada vez mais as pessoas mundo fora que entendem e apoiam a causa da igualdade entre géneros, seja na edução, no acesso a oportunidades laborais, dentro das paredes de casa, no espaço público. Mas é preciso fazer mais. E a equipa do HeForShe Portugal já está a meter as mãos na massa.

Tal como noutros países, o enfoque deste movimento em Portugal vai ser a educação das populações mais jovens, tendo como ponto de partida estabelecimentos ensino. O ISCTE foi o primeiro a abrir as suas portas à ideia, mas espera-se que até ao final do ano outras escolas e faculdades adiram ao movimento e promovam a importância da igualdade de género através de ações como conferências, debates e workshops liderados pela equipa do HeForShe Portugal. No próximo dia 11 de março, o movimento português apresenta-se oficialmente no Museu Paula Rego, em Cascais, num evento intitulado “Arts Day”. É aberto ao público e vai ter opentalks, exposições, concertos e workshops, além de um Ignite HeForShe (des)Igualdades de Género. Eu vou, e vocês?