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Expresso

Temos um problema: 1 em cada 4 jovens acha normal violência no namoro

Há números que nos devem preocupar a todos nós, quer sejamos pais, quer não. Aqueles relativos à violência do namoro, revelados oficialmente ontem pela UMAR, são um desses exemplos. Em tom de resumo, três valores anunciados que traçam a realidade das relações amorosas de uma mostra de 5500 jovens, com uma média de idades de 15 anos: um em cada quatro considera normais ou aceitáveis comportamentos que se integram no padrão da violência de género e da violência doméstica; partilhar fotos íntimas é normal para 24% dos jovens, tal como insultar o companheiro(a) através das redes sociais; 14% do jovens legitima a violência psicológica, havendo 19% de jovens que já foi vítima deste último tipo de violência.

De acordo com os últimos dados da PSP (ligados ao Programa Escola Segura, que abrange 1,1 milhões de alunos), só em 2016 foram denunciados à polícia 1787 casos de violência no namoro, 1020 entre ex-namorados e 767 entre namorados. Um problema transversal a todas as classes sociais. Posto isto, quero acreditar que todos estaremos de acordo: temos um problema entre mãos e é preciso travá-lo.

Já há dois anos que a violência no namoro está integrada no crime público de violência doméstica, sendo, portanto, punível. Esta foi uma boa tomada de decisão com vista a travar a banalização de um flagelo social que simplesmente não pode ser banal, nem muito menos menosprezado. Situação que, muitas vezes, não é mais do que um perpetuar do ciclo de agressão/aceitação vivido dentro do seio familiar de tantas crianças e adolescentes Portugal fora.

Agressões verbais, coação, bullying, violência física

Associações como a UMAR ou a APAV têm feitos esforços claros para alertar a sociedade civil e os decisores políticos para alguns dos desafios dos tempos de hoje no que diz respeito aos jovens. A violência no namoro não passa exclusivamente pela agressão física, e tal como nas relações familiares e de intimidade entre adultos, é preciso ir mais longe. Violência verbal (presencial, telefónica ou até mesmo via redes sociais), exigir a passwords de email e redes sociais, ter acesso ao telemóvel para “confiscar” listas de chamadas e sms feitos e recebidos, escolher a roupa com que a namorada sai à noite, relações sexuais forçadas, coação, intimidação, vexame público: tudo isto faz parte da lista de situações observadas e assinaladas por quem trabalhar com jovens. Situações que, mais uma vez, não nos podem deixar indiferentes. São eles o futuro do país.

Os números de denúncias feitas por jovens vítimas também têm subido, o que nos faz pensar que a consciencialização para a queixa está mais presente. Contudo, a violência também. Criminalizar as situações abusivas no namoro não é suficiente, é preciso mudar mentalidades. Em casa, na escola, no espaço público. Ontem, a Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade anunciou que o Governo vai disponibilizar 650 mil euros para sete projetos de combate à violência no namoro, que deverão atingir mais de 15 mil jovens de todo o país. Além disso, surge ainda o lançamento de uma linha de financiamento até 50 mil euros de projetos que venham a ser desenvolvidos por associações ou federações académicas sobre este tema.

Mais uma vez, Catarina Marcelino volta a assumir que existe um problema, nas suas palavras, uma “cultura de violência instalada”. Assumi-lo é o primeiro passo para lidarmos com ele. Desde campanhas em outdoors em todas as cidades que têm politécnicos a uma estratégia nacional para a cidadania do pré-escolar ao 12.º ano, a ideia é apostar com força na prevenção, dentro e fora das salas de aulas. Prevenir é salvaguardar o futuro e se ainda há dúvidas sobre porque é que devemos fazê-lo, o mote da campanha One Billion Rising (que começou em 2012 com o intuito de acabar com violência de género no mundo) pode ajudar-nos a dissipá-las: 1 em cada 3 mulheres no planeta será espancada ou violada durante a sua vida. Não podemos continuar a educar agressores, nem tampouco vítimas que aceitem o abuso.