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Expresso

Sim, ela usa o tamanho 44, é modelo e está na capa da “Vogue”

Vogue US, edição de março

“A Revolução da Beleza: não ter normas é a nova norma”. O título da capa de março da Vogue americana, acompanhado por uma foto de sete modelos famosas, de diferentes nacionalidades, etnias e, num dos casos, tamanho, cumpre o seu propósito. A bíblia da moda junta-se à vaga de marcas que já perceberam que o ativismo e as causas sociais vendem atualmente mais do que a sensualidade frívola e vazia de conteúdo humano, além de gerarem mais furor entre os consumidores finais, cada vez mais atentos a estas temáticas. E que quem não apanhar a carruagem em tempo útil fica para trás em termos de popularidade e reputação.

Depois de nos últimos grandes desfiles de moda de 2016, onde tabus como o tamanho corporal, a idade ou as deficiências tenham sido levados às passarelas de Nova Iorque, Paris e Milhão, por uma maior inclusão, não é de estranhar a Vogue americana faça este tipo de afirmação. E ainda bem que o faz. Mais uma vez, Ashley Graham, com o seu tamanho 44, volta a servir de bandeira para a inclusão no universo da moda, desta vez lado a lado com nomes como Kendall Jenner ou Gigi Hadid na capa da publicação. É a primeira vez que acontece e a mensagem, por mais intuitos comerciais que possa ter, é relevante: a beleza está na diversidade. E os eternos estereótipos associados às medidas corporais ideias estão a mudar.

Não é , contudo, a primeira vez que Graham faz furor numa capa da Vogue. A primeira edição deste ano da versão britânica da revista foi precisamente com a modelo plus size. Na altura, a editora da publicação explicava no editorial como tinha sido complicado convencer algumas marcas a cederem roupa para Graham, por não a considerarem esteticamente interessante. Tão absurdo e cínico quanto isto. Dois meses depois, a modelo volta a figurar numa capa da Vogue, desta vez na versão americana, edição que é considerada a bíblia da moda. Como diriam o moços da NBA: “In your face!”.

EUA: 67% das mulheres vestem acima do 40

Acho que a mensagem simbólica todos nós a percebemos, mas na revista a própria modelo explica porque é que tomadas de posição como esta são importantes até mesmo para a sustentabilidade da indústria da moda: “Cerca de 67% das mulheres que vivem nos Estados-Unidos usam o tamanho 42 ou acima disso. Sessenta e sete por cento! Se calhar, há uns anos era possível ignorar essas consumidoras, mas agora, graças às redes sociais, elas têm feito com que as suas vozes sejam ouvidas. As mulheres estão a exigir que as marcas lhes deem aquilo que querem. E aquilo que querem é ser tidas em consideração.”

Sem surpresas, claro que surgiram críticas à foto de capa. Há quem acuse a modelo de querer esconder o tamanho da coxa com a mão (eu diria que, pelo contrário, é enaltece-la, chamando a atenção do olhar do leitor), quem ache que isso foi uma imposição da Vogue, quem acuse a revista de usar Photoshop para emagrecer Ashley (basta espreitar as fotos para além da capa para se perceber que essa teoria não faz sentido) e quem ache estranha a posição da mão de Gigi Hadid na capa (não é preciso ser muito observador para perceber que é ilusão de óptica e que a mão em torno da cintura de Graham é a da modelo que a abraça por trás... enfim). É normal que surjam críticas. Mas também é preciso que no meio de tanta discussão não se perca o foco para o que é realmente importante: o elogio à diversidade. E esse é o tipo de bom exemplo que eu espero que venha a influenciar as adolescentes de hoje.

Quanto a isso, fica apenas a nota de que realmente teria sido inteligente juntar figuras femininas de idades diferentes e incluir uma mulher negra, das caraterísticas também tão representativas de uma boa percentagem das mulheres americanas. Seja como for, o objetivo foi conseguido e o exemplo está dado. Não há normas nisto da beleza e o mundo da moda não deve ser exceção. Tudo isto faz parte do caminho para a sua democratização.