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Expresso

Eles avisaram-na, ela insistiu. E ainda bem que o fez

Não podemos dizer que aquilo que aconteceu no início desta semana na câmara alta do Congresso dos EUA seja algo comum: invocou-se a regra 19 para silenciar alguém, alegando falta de respeito nas palavras que estava a usar. Durante o debate sobre a possível nomeação de Jeff Sessions, a suposta impertinência e falta de decoro de Elizabeth Warren foi ler uma carta de Coretta Scott King, onde, em 1986, a mulher de Luther King acusava Sessions de ter "usado o seu poder enquanto advogado dos EUA para intimidar e bloquear o direito ao voto garantido a todos os cidadãos". Relembrar o passado – na altura ponderava-se a nomeação de Sessions para o cargo de juiz federal - através das palavras de alguém que lutou pela igualdade racialnão caiu bem à ala republicana e a solução foi simples: Warren tinha de ser silenciada antes de causar estragos, como já fez no passado. Mas o tiro saiu-lhes nitidamente pela culatra.

A justificação de Mitch McConnell, o líder da maioria republicana no Senado, para tal tomada de atitude foi desprezível: “Ela foi avisada. Foi-lhe dada uma explicação. Ainda assim, ela insistiu”. E escusado será dizer que é inaceitável o desrespeito inerente a silenciar-se alguém que lê uma carta tão simbólica quanto aquela, numa altura em que os Estados Unidos voltam a enfrentar ondas de racismo e xenofobia, questões que levaram décadas até estarem protegidas por lei. Diz-nos a história mundial que nomear alguém que faz comentários racistas para secretário da Justiça de um país é um mau presságio. Tal como basta olhar para trás para percebermos que silenciar quem vai contra as ideias de um grande líder e dos seus comparsas é um dos muitos sintomas de antecipação de um regime totalitário. Espero que quem esteja a assistir a isto, seja lá ou cá, consiga entendê-lo.

Antevisões à parte, parece-me que é também preciso perceber porque é que Elizabeth Warren é persona non grata por aquelas bandas. E porque é que esta a interrupção da intervenção da senadora democrata, usando uma regra que só faz sentido em casos extremos de desrespeito entre senadores, é uma das maiores pedradas no charco dos aliados de Trump. Numa frase, podíamos resumir isto tudo: os republicanos sabem que Elizabeth Warren é uma forte candidata à Presidência. E que em 2020 é muito, mas mesmo muito provável, que a venham a enfrentar quando chegar a hora das eleições.

Warren questiona demais, aponta o dedo e não vai esquemas

Altamente popular entre os progressistas do país, Warren começou por baixo, nascida numa família de classe média baixa. Ficou órfã de pai cedo, o que a obrigou a começar a ajudar a pagar as contas ainda garota. O seu percurso fez-se graças as três palavras que muitas pessoas não trazem na bagagem: sacrifício, honestidade e meritocracia. Ao mesmo tempo que lavava pratos, teve acesso à faculdade por via das bolsas que foi conquistando por ser aluna aplicada. Licenciou-se em patologia da língua e ensinou crianças com necessidades especiais em escolas públicas, tal como posteriormente também foi professora universitária em Harvard. O direito só entraria na sua vida alguns anos mais tarde, mas hoje é considerada pelo National Law Journal como uma das 50 advogadas mais influentes do país. A Time já a pôs mesmo entre as figuras mais influentes do mundo. Uma coisa é certa: Elizabeth Warren conhece bem a realidade da classe média norte-americana, tal como trata por tu as finanças do país.

A luta contra a corrupção é uma das suas maiores áreas de intervenção, portanto não é de estranhar que tanto a banca como os grandes empresários não a vejam com bons olhos. Aliás, achar que os ricos deveriam pagar mais impostos faz parte da sua ideologia. Foi conselheira de Obama, mas quando surgiu a hipótese de ficar à frente do Tesouro norte-americano, a discussão azedou e a sua nomeação não foi possível: muitos consideravam-na “demasiado zelosa” para o cargo. Warren é uma mulher que questiona demais, que aponta o dedo, que não vai em esquemas e que levanta dúvidas sobre conflitos de interesses (como o está a fazer com o próprio Presidente Trump). Claro que como qualquer político – ou pessoa – tem os seus defeitos e momentos menos felizes, mas o balanço é positivo. Mesmo sem apoio da banca, conseguiu fundos para a sua campanha e hoje é a primeira mulher a assumir o cargo de Senadora do Estado de Massachusetts. Mais do que tudo, é uma figura de enorme destaque ente os democratas. E os republicanos sabem disso.

“Ela foi avisada. Foi-lhe dada uma explicação. Ainda assim, ela insistiu”. E ainda bem que o fez porque se há um denominador comum a todas as pessoas que fizeram parte de movimentos de resistência foi a persistência. A coragem de fazer e dizer publicamente o que todos evitavam ou silenciavam, por medo de represálias. Foi a capacidade de compreender que era preciso alguém fazê-lo para que a mudança pudesse acontecer. Foi assim com Rosa Parks, com Emmeline Pankhurst, com Malala Yousafzai, com Carolina Beatriz Ângelo, com as eternas Três Marias, e tantas outras mulheres e homens que ajudaram a mudar o percurso dos seus países e do mundo.

Ao contrário do que poderiam pensar, tentar silenciar Elizabeth Warren foi dar-lhe palco. Pôr-lhe os holofotes em cima, tornar a suas palavras virais. E tão cedo o povo norte-americano não se vai esquecer desta mulher que ousou resistir com tamanha grandeza de espírito.