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Expresso

Entre marido e mulher metam a colher

Lembro-me distintamente daquela tarde que marcou toda a minha adolescência. Tinha 16 anos e caminhava para casa num bairro lisboeta. Oiço uma mulher gritar de dor e assisto a algo que nunca me irá sair da memória: ela caminhava lado a lado com o marido, que a cada três metros parava para a agredir verbal e fisicamente. Ela encolhia-se, ele batia-lhe. Uma das vezes foi com tanta força que a mulher caiu de joelhos no chão e jorrou sangue do nariz. O meu ímpeto foi correr para me meter entre eles, mas o meu namoradinho da altura agarrou-me por um braço e pediu-me que não o fizesse porque o homem era um bisonte e eu acabaria por sair magoada. Olhei em volta e várias pessoas estavam às portas de lojas e cafés a ver aquele verdadeiro calvário da senhora. Ninguém, repito, ninguém se meteu. Gritei furiosa a ao dono do quiosque de revistas lá da zona e pedi-lhe que fizesse algo. A resposta foi esta: “São coisas deles, não nos devemos meter”. Tinha 16 anos e a única coisa que me lembrei de fazer foi ligar para o 112 e relatar o que estava a passar. O casal desapareceu rua fora e nunca soube o que aconteceu àquela mulher. Fui para casa e chorei a tarde toda pelo injustiça da agressão, pela apatia dos que assistiam, pela sensação de impotência que senti. E se hoje, com o dobro da idade, tantas vezes escrevo aqui sobre estes temas, tenho noção perfeita de que é também por aquela mulher que o faço.

Diz o ditado popular que “entre marido e mulher não se mete a colher”. Mas se naquela tarde alguém o tivesse feito, o rumo daquele relacionamento abusivo poderia ter sido diferente. Tal como tantas outras histórias de abuso continuado poderiam ser travadas em tempo útil caso todos nós percebêssemos que temos a obrigação de ajudar quem está em tal situação, mesmo quando a pessoa ainda não consegue compreender ou aceitar que precisa de ajuda. É por isso que aplaudo a iniciativa que surgiu recentemente no Brasil, com base numa aplicação de telemóvel que se chama precisamente “ Mete a colher”.

A cada hora e meia, uma mulher morre vítima de violência doméstica no Brasil 

A ideia base é simples e passa por conectar mulheres que precisam de ajuda com mulheres que querem ajudar. Através de uma simples aplicação, faz-se a base de tudo: ouve-se e aconselha-se. Mas também se oferece abrigo temporário, apoio e esclarecimento jurídico, encaminham-se casos para autoridades, oferecem-se oportunidades de emprego (com vista à independência financeira, um dos maiores entraves da vítima), dá-se um ombro amigo para chorar. Não só diretamente às vítimas, mas também a familiares e amigos que não saibam como podem ajudar em situações do género.

O projeto foi criado por seis mulheres e é exclusivo para mulheres, com login através do Facebok. Todas as mensagens trocadas podem ser critografadas e apagar-se ao fim de pouco tempo, para proteção da vítima. Desde o apoio emocional ao financeiro ou jurídico, todas elas são formas de empoderar quem está dentro de uma relação abusiva, factor que poder ser crucial na sua tomada de decisão de quebrar o laço e o contacto com o agressor. E porque é que surge a ideia desta aplicação? Porque a cada 1 hora e meia, uma mulher morre vítima de violência doméstica no Brasil.  E porque 52% dos brasileiros acham que juízes e policia desqualificam o problema da violência contar a mulher.

Para quem não percebe porque é que as vítimas têm dificuldades em sair sozinhas deste tipo de relação, o vídeo de apresentação desta startup explica: “ Não é fácil sair de um relacionamento abusivo. O abuso geralmente acontece em ciclos e o agressor deixa a vítima num constante estado de medo, com agressões verbais, ciúmes e ameaças. O clima vai piorando até explodir numa agressão física, que é o momento em que a mulher finalmente percebe que está numa relacionamento abusivo. Quando ela tenta pôr ponto final e sair da relação, o agressor pede perdão diz que a aquilo nunca mais se vai repetir, promete que vai mudar. E assim começa tudo de novo. A mulher que está dentro deste círculo é constantemente fragilizada, isolada de apoio. E por conta do afeto que sente pelo companheiro, acaba a creditar que ele vai mudar e continua presa no relacionamento. Para conseguir romper o ciclo, ela precisa de ajuda”. Nem todas as situações são assim, mas há neste relato denominadores que são comuns e que não devemos menosprezar.

Embora não seja uma panaceia para a resolução de um problema com dimensões tão elevadas quanto as que são registadas no Brasil, acredito que esta aplicação, e a rede de apoio que proporciona, pode ajudar muitas pessoas. Não só aquelas que precisam de quebrar o ciclo, mas também as que querem meter a colher numa situação de violência dentro do seu círculo íntimo e não sabem como fazer.