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Expresso

Esta mulher está grávida há cinco anos. E tem um bom motivo

d.r.

Lauren é uma mulher de trinta e poucos anos, técnica jurídica numa firma de advogados, empenhada no seu trabalho e grávida de cinco anos. Sim, isso mesmo: 260 semanas, quatro dias e 9 horas de gravidez. O tamanho da sua barriga é inimaginável, tal como o esforço que faz para conseguir manter o feto dentro de si, pelo menos até aos seis anos, altura em que Lauren e o marido conseguirão ter poupado dias de folga e dinheiro suficiente para poderem estar fora dos seus trabalhos aquando do parto. Claro que pelos motivos que todos sabemos, esta história é falsa. Mas o que mais choca nesta narrativa absurda, não é o tamanho da barriga desta mulher, muito menos a duração irreal da sua gravidez: é o facto de nem Lauren, nem o marido, terem direito a licença de maternidade paga, mesmo vivendo num dos países mais desenvolvidos no mundo.

O vídeo foi lançado há uns dias pela mão da The National Partnership for Women and Families, uma associação norte-americana que se dedica a apoiar a saúde e os direitos reprodutivos nos Estados Unidos. A história de Lauren, contada de forma genial, e em tom de sátira, faz parte da campanha “A Long Five Years”, que pretende chamar à atenção para uma falha incompreensível na lei, que prejudica 86% da população daquele país: a falta de licença de maternidade paga.

Aos olhos da lei, as trabalhadoras têm direito a ficar 12 semanas sem trabalhar na altura do nascimento, mas sem receberem qualquer dinheiro durante essa ausência (mesmo este direito está sujeito a uma série de condições específicas, que alguns Estados têm tentado atenuar nos últimos anos). Na sua larga maioria, as pessoas não têm rendimentos suficientes para suportarem tal custo e acabam por usar o tempo de férias pagas anuais, abdicando do seu direito ao descanso. Uma em cada quatro mulheres regressa ao trabalho ao fim de duas semanas após ter dado à luz, lê-se no site da campanha. Basicamente, dar ou não dar dias de licença de maternidade paga fica ao critério de cada entidade empregadora, algo que deixa mães, pais e bebés totalmente desprotegidos, e à mercê da boa vontade alheia.

Não deixa de ser irónico que com uma questão como esta em cima da mesa, Donald Trump, assumido homem pró-vida, tenha tido como prioridade imediata do seu mandato reinstalar a “regra da mordaça global” (relacionada com interrupções voluntárias de gravidez). Para isso, justificou-se dizendo que a sua intenção é “defender todos os americanos, incluindo os que ainda não nasceram”. Se assim é, não seria mais importante e urgente alterar esta lei absurda que desprotege mães, pais e crianças numa altura tão crucial quanto a do nascimento? Não, continuar a demonizar o aborto é que é, obviamente, uma necessidade urgente para o país.

“O Estados Unidos são o único país desenvolvido que não tem licença de maternidade paga”, frisa o vídeo, que deixa uma mensagem irónica em tom de conclusão: passar a ter um direito tão básico “seria uma total loucura”, portanto Lauren vai continuar grávida até conseguir juntar dinheiro e dias suficientes de folga do seu emprego para poder dar à luz. Se isto não fosse um verdadeiro drama na vida de tantos milhões de pessoas, realmente até dava para rir.