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Expresso

Trump, Ellen DeGeneres e o peixinho Dory

Já muito este tema tem sido discutido por aqui nos últimos dias, portanto não me vou alongar em reflexões sobre a atual situação social e política dos Estados Unidos. Contudo, há um excerto de um programa de televisão transmitido há menos de 24 horas que faz sentido que todos vejam. Dura pouco mais de dois minutos, recorre a um filme de animação e não utiliza uma única vez a palavra Trump. Mas é impossível não nos deixar a pensar sobre a essência simples da sua mensagem.

Falo da última emissão do programa da norte-americana Ellen DeGeneres, que agarrando em imagens do filme “À Procura de Dory” fez, não só uma crítica carregada de ironia à administração Trump, como lançou um apelo, em tom de lição de moral, ao povo norte-americano. Sim, recorrendo ao peixinho que sofre de amnésia, e que acabou preso atrás dos muros de um aquário público.

Ellen DeGeneres é conhecida pela forma descomplexada e direta com que que consegue abordar questões fraturantes, principalmente as que envolvem a discriminação das minorias. Nesta sua última intervenção, a mensagem a reter é simples: não foi um muro que impediu Dory de passar para o outro lado, em busca de uma vida mais feliz e livre. E para conseguir voltar a reunir-se com a sua família, um desejo e direito básicos, mesmo para um peixe, contou com a ajuda de outros peixes e demais criaturas marinhas, mesmo aquelas que não a conheciam ou que eram diferentes de si, tanto em tamanho, cor ou necessidades. E porquê? Fazendo minhas as palavras de DeGeneres: “Porque é isso que se faz quando alguém precisa de ajuda, ajudamos”.

O respeito e a compaixão pelo próximo, a capacidade de autorreflexão, a consciência, a união das massas e o ativismo são muito mais poderosos do que a simples inércia, seja ela motivada pelo medo, pela ignorância ou pelo ódio. E na fase atual que aquele país enfrenta, é importante que ninguém esqueça a real importância da vida em democracia e os direitos fundamentais a ela associados, mesmo perante um má escolha feita democraticamente. DeGeneres consegue chegar precisamente às massas, falar numa linguagem que todos compreendem e isso pode ser muito poderoso nos tempos que correm.

As ameaças atreladas a jogos de conquista e de poder fazem parte da história da humanidade, tal como a desumanidade com que continuamente fomos lidando com isso. Esquecendo-nos invariavelmente do mais essencial: que somos todos pessoas. E que todos temos direito a uma vida digna, justa, sã e segura, independentemente da raça, nacionalidade, credo ou orientação sexual. Quando falamos em inimigos, não podemos, nem devemos, generalizar. Já o fizemos no passado e o resultado foi trágico. Sempre, sempre, sempre. O medo e a exclusão não nos salvam, nem tampouco no protegem dos males do mundo.

No que toca a amnésia – seja ela retrógrada ou anterógrada – não sejamos Dory, por favor.