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A Marcha das Mulheres também é sobre os homens

A Marcha das Mulheres começou por estar marcada apenas para Washington, mas neste momento a repercussão global é algo de inacreditável: são mais de 600 cidades e vários milhões de pessoas envolvidas no protesto que acontece amanhã. Digo pessoas porque, embora esta marcha tenha surgido por iniciativa feminina, não é, contudo, exclusiva a mulheres. Aliás, mundo fora já se percebeu que este protesto de proporções gigantescas é sobre todos nós, humanos. Seja qual for o nosso género, raça, nacionalidade, credo, orientação sexual, ideologia, situação económico-social.

A Marcha das Mulheres vai também acontecer em Portugal, em Lisboa, Porto, Braga, Coimbra, Faro e Angra do Heroísmo. E se ainda não pararam para pensar em porque é que é tão importante nos juntarmos todos neste protesto, vou tentar dar uma ajuda. A ideia teve como ponto de partida a luta contra a misoginia, a discriminação de género, a violência contra as mulheres, o assédio sexual e o ataque aos direitos sexuais reprodutivos, todas elas questões em que Donald Trump demonstrou ser pródigo – pelo lado negativo - durantes os meses de campanha eleitoral. Aliás, é por isso que este protesto surge precisamente um dia depois de ele assumir oficialmente o cargo de Presidente dos Estados Unidos: Trump personifica tudo isto. Mas não só.

Se a forma misógina, desrespeitosa e totalmente discriminatória como se refere ao sexo feminino (mais de metade da população mundial) não era suficiente para irmos todos para a rua, então que pensemos também nos comentários racistas, xenófobos, homofóbicos e totalmente desproporcionados no que toca a diabolizar minorias ou populações mais excluídas. Na forma como constantemente desrespeitou e pôs em causa as regras mais básicas do direitos civis e humanos, no seu país e nos demais. Neste tipo de bullying e abuso de poder sobre o qual tão bem falava Meryl Streep há umas semanas, ao qual nem sequer as pessoas portadoras de deficiências escaparam.

Entre as promessas em tom de ameaça que Trump fez, estão em causa questões tão graves como colocar o aquecimento global na qualidade de mito, garantindo um retrocesso no trabalho que tem sido feito em prol das questões ambientais. A interdição na entrada de emigrantes nos Estados Unidos, um país que cresceu e se tornou no que é hoje precisamente graças à multiculturalidade. A promessa de construção de um muro que sirva de fronteira com o México, país pelo qual nutre visível desprezo, tal como um desejo cego de pôr fim ao acesso a cuidados de saúde recém adquirido por milhões de norte-americanos mais carenciados.

Trump quer também aliar-se à Rússia e, pelo caminho, faz pé de vento com a China. Julgo que não é preciso ser muito inteligente para perceber que isso pode originar um conflito de proporções desmedidas. Considera a NATO obsoleta e põe as Nações Unidas no patamar de organização que não faz falta nenhuma ao mundo. Pelo meio, deixa clara a intenção de lançar à urtigas o suado acordo nuclear com o Irão e não pensa duas vezes em criar mais um grave conflito diplomático no coração de Israel. Como escrevia o Nicolau Santos no Expresso Curto desta manhã, hoje pode ser o primeiro dia da III Guerra Mundial. Se isto não são motivos suficientes para nos deixar a todos preocupados, então não sei o que será.

Ainda há uns dias lia no evento de Facebook da Marcha das Mulheres em Lisboa, uma senhora que escrevia sem pudor, e para quem quisesse ler, que esta era “a marcha das mal fodidas”. Cara Inês, e demais pessoas que dizem e escrevem barbaridades que tal, esta marcha não é apenas sobre Trump, é precisamente sobre tudo e todos os que ele representa com as suas ações. Atitudes como este tipo de comentários, incluídas. Que fique claro, este é um protesto contra o desrespeito pelo próximo, o sexismo (já agora, não me recordo de num protesto de taxistas ou de professores, por exemplo, alguém dizer que era uma “marcha de mal fodidos”), a ofensa gratuita, a discriminação, seja ela qual for, a agressão como forma de desmonstração de discordância ou de poder, o fascismo, a demonização das minorias, a falta de capacidade ou de vontade de olhar para o a realidade que nos rodeia e de conseguir refletir sobre o que é óbvio: estamos longe de viver num mundo igualitário, justo e pacífico. E só juntos é que podemos mudar o rumo sombrio para onde nos estamos a encaminhar.