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Expresso

Assédio: “Podiam ser as vossas mães ou irmãs”

Karachi, sábado à noite, concerto de pop rock do cantor paquistanês Atif Aslam. As guitarras elétricas marcam os primeiros acordes do próximo hit do jovem cantor, a audiência aplaude, os ânimos acendem-se. Mas antes de começar a cantar, Aslam pede aos músicos para pararem e dirige-se a um grupo de homens na audiência. Indignado, repreende-os: “Nunca viram uma rapariga na vida? As vossas mães e as vossas irmãs podiam estar aqui também. Ajam como seres humanos!”.

O que se passou? Um grupo de homens estava a assediar uma mulher que assistia ao concerto. Se tal comportamento foi, durante séculos, admissível no Paquistão, hoje há já algumas franjas das gerações mais jovens que se insurgem contra tal comportamento. Repudiá-lo em praça pública parece-me essencial para que a mudança de mentalidades possa acontecer, por mais lenta que ela seja. Posto isto, um aplauso a Atif Aslam por dar o exemplo.

O vídeo não para de correr as redes sociais, mas há pormenores nele que também nos levam a perceber quão difícil e novo é contrariar o assédio num país como aquele. A pedido do cantor, a mulher que estava a ser molestada foi retirada da audiência e levada para um lugar seguro onde pôde ver o resto do concerto sem ser importunada. Contudo, tirando a repreensão e o vexame público, mais nada aconteceu aos agressores. Ninguém os expulsou da sala de concerto. Mais uma vez, é à mulher que é pedido que mude de lugar para que possa estar em segurança. Tal como tantas vezes é a mulher que tem de alterar a sua rotina, a sua forma de vestir, o seu comportamento ou as suas escolhas para que algo tão básico quanto o respeito ou a segurança possam ser viáveis.

Seja como for, e tendo em conta a realidade sociocultural do Paquistão, este é um momento que deve ser aplaudido e dado como exemplo. O assédio, seja ele em forma de apalpão, de “encosto” ou de sugestões sexuais verbais para além dos limites do respeito na interação entre duas pessoas, não é aceitável. Tão simples quanto isto. Intervir é necessário, diria mesmo, essencial. Quando uma pessoa está a ser desrespeitada, agredida, seja física ou psicologicamente, cabe-nos a todos intervir. Não fazê-lo é compactuar.

Podemos também achar que isto só acontece no Paquistão ou noutros países com vincados sistemas patriarcais. Mas basta pensar, por exemplo, que ainda no ano passado o espanhol Alejandro Sanz teve de fazer exatamente isto num concerto seu. Ou então voltar a olhar para os números relacionados com o assédio, que não me canso de repetir por aqui: Sabem quantas mulheres da União Europeia viveram situações de assédio sexual a partir dos 15 anos? À volta de 83 milhões, ou seja, qualquer coisa como mais de 50% da população feminina a residir nos 28 Estados-Membros. Este grande levantamento da UE, que aborda a violência sobre as mulheres, revela ainda que 29% das suas cidadãs já foram alvo de avanços físicos indesejados.

Como diria Atif Asalam: “Ajam como seres humanos”. Mas não aqueles que continuam presos aos eternos dogmas da supremacia masculina sobre a feminina, de quem não se espera mais do que submissão e conformismo perante a humilhação e o desrespeito.