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Expresso

O vídeo macabro que tanta gente parece querer ver

Tudo neste história é trágico e sintomático da apatia social em que vivemos, numa altura em que a necessidade de imediatismo, de exposição pública para além de todas as fronteiras e a avidez generalizada pelo voyeurismo ganham proporções macabras. Durante vários dias do mês de dezembro, uma menina norte-americana, de 12 anos, fez consecutivas transmissões em direto a partir do seu telemóvel para a plataforma Live.me, onde, visivelmente perturbada, falava do cenário familiar disfuncional onde vivia. Muitas vezes acompanhada por discussões familiares como som de fundo, a menina repetia que era vítima de abusos verbais e sexuais por parte do padrasto, ponderando suicidar-se. Os vídeos tinham muitas visualizações, mas a ajuda nunca chegou. No último vídeo que fez, a menina transmitiu em direto o seu suicídio.

Dezenas de pessoas ligaram para as autoridades ao verem a transmissão, mas a polícia não chegou a tempo. Como se isto não fosse por si só uma tragédia, esse último vídeo foi posteriormente partilhado no Facebook e no YouTube, onde ficou disponível durante alguns dias até ser retirado. Dias suficientes para ter sido visto por mais de 40 mil pessoas, só no YouTube. Hoje, se formos a esse mesmo site, multiplicam-se os vídeos com a cara da menina, prometendo imagens da sua última transmissão em direto. Quando percebem que, afinal, essas imagens não estão disponíveis, são muitos os utilizadores que escrevem comentários indignados, tais como: “Mas aqui não se vê nada!” ou “Onde raio posso ver o suicídio?”. Se isto não é sintomático de um mundo (evoluído?) que está profundamente doente, então não sei o que será.

O vídeo tornou-se viral e há quem esteja a ganhar dinheiro com isso

Outra das coisas que me deixa perplexa é, mais uma vez, constatar que sites que censuram a torto e a direito imagens como as de uma mulher a amamentar, permitam ter disponível durante vários dias um vídeo com tal conteúdo. Ainda mais perturbador é perceber a quantidade de gente totalmente ávida por ver tais imagens. Depois de ser retirado do Facebook e do Youtube, o vídeo tornou-se viral noutras plataformas e as autoridades têm explicado aos media que não conseguem pôr-lhe travão. Porquê? Porque existe um vazio legal que não proíbe a sua partilha, diz a polícia. Resta fazer repetidos apelos ao bom-senso, algo que não parece surtir efeito: embora seja do senso comum que o mimetismo é uma realidade em casos do género, há muitas pessoas que o querem ver e outras tantas dispostas a partilhá-lo, fazendo render a publicidade no seus sites. São, contudo, poucos os que parecem estar dispostos a questionar tanto as consequências de tal partilha, como o que está em causa por trás desta história trágica.

Entre muitas outras, há perguntas que me assaltaram a mente mal vi esta história: Como é que uma criança que publica repetidos vídeos sobre maus-tratos, que age de forma visivelmente perturbada e que anuncia amiúde que tenciona tirar a própria vida, não está, pelo menos, sinalizada pela própria escola e pelas autoridades competentes? O que leva uma criança de tão tenra idade a planear um suicídio de forma tão detalhada? E porque é que que decide transmiti-lo em direto? Essa necessidade e exibição pública não nos devia deixar a refletir? Como é que tanta gente viu os seus vídeos anteriores, mas só ao assistirem à sua morte acontecer num ecrã é que decidiram alertar as autoridades? Como é que tantos jornais continuam a partilhar esta notícia, com a imagem da criança e pormenores detalhados sobre o suicídio? Acima de tudo, até que ponto continuamos a desvalorizar o sofrimento das vítimas de violência familiar, incluindo o das crianças e dos adolescentes?