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Expresso

Esta app pode evitar muitas mortes trágicas 

A realidade não é nova: O Paquistão está entre os três países mais perigosos do mundo para se nascer mulher. Os números de violência doméstica, de abuso sexual e de femicídio são inenarráveis e a mudança de mentalidade, que continua a catalogar as mulheres como cidadãs de segunda categoria, submissas à vontade e poder masculino, tarda a chegar. As atrocidades feitas às meninas e mulheres ganham proporções ainda mais assustadoras quando falamos das que acontecem dentro do próprio seio familiar: só no ano passado, 1096 mulheres foram mortas por familiares que acreditavam que estas tinham desonrado o nome da família. Quase 200 destas vítimas eram menores de idade.

A presença cada vez mais ativa de organizações ligadas aos direitos humanos e o mediatismo em torno de alguns casos trágicos (que já chegaram além fronteiras, por exemplo, através dos próprios Óscares de Hollywood), têm levado a sucessivas alterações à lei, com vista a melhorar as condições de vida do sexo feminino no país. Entre elas, a lei que no início do ano passado finalmente contemplou proteção legal às vítimas de violência doméstica, sexual e psicológica, residentes no Punjab.

Contudo, o Paquistão continua a ser aquele país onde, em muitos sítios, a presença feminina em espaços públicos – como a beber um café numa esplanada com uma amiga – ainda é vista como uma afronta. Onde uma adolescente que seja vista a conversar com um rapaz, sem supervisão, pode ser morta pela família em noma da honra. E onde ainda há cerca de um ano, o Conselho de Ideologia Islâmica decidiu apresentar ao Parlamento um documento de 163 páginas, onde descrevia o que deveria ser esperado da conduta feminina, pedindo que a lei aprovada no arranque de 2016 fosse alterada. Alteração que devia prever a possibilidade de um homem “bater ligeiramente” na mulher em situações como recusa de relações sexuais, quando elas não se lavam depois do coito ou quando elas não se quiserem vestir conforme a opinião e desejos do marido. Enfim.

A intervenção da polícia à distância de um clique

Posto isto, escusado será dizer que continua a ser urgente pôr em prática medidas que protejam todas estas meninas e mulheres de ataques à sua vida. Que as façam perceber que quebrar o silêncio, o medo e vergonha é essencial, e que alinhem as autoridades competentes para o combate à violência de género, que já foi considerada “uma das maiores pragas” do Paquistão. A pensar nisso, acaba de ser lançada no Punjab – uma das províncias do país com maior índice de crimes contra as mulheres - uma app de telemóvel que pode ajudar muitas das vítimas a terem socorro imediato.

Chama-se PSCA (Punjab Safe Cities Authority) e funciona de forma bem simples: em caso de assédio ou de qualquer tentativa de ataque físico (dentro ou fora de casa), a vítima basta acionar o botão de emergência, que envia as coordenadas gps da sua localização para três serviços diferentes ligados a esta problemática, incluindo a polícia local. Idealmente, e é o que é esperado, um piquete de emergência da polícia dirige-se ao local de imediato. Na mesma aplicação, os utilizadores podem ainda enviar informações sobre zonas que consideram perigosas e também pedir esclarecimentos sobre a legislação em casos de violência.

A ‘PSCA’ não vai servir de panaceia para um problema tão grave de violência como o que é vivido diariamente no Paquistão. E embora a taxa de utilização de telemóveis no país seja massiva, é óbvio que há muitas mulheres que não têm smartphones, muitas outras a quem a informação não chegará, ou que, se chegar, não saberão o que fazer com ela. Principalmente nos meios rurais, onde a capacidade de resposta das autoridades também tem tudo para não ser suficientemente célere. Mas uma coisa é certa: se a ação das autoridade envolvidas der realmente resposta rápida, esta app pode vir a travar muitos ataques antes de um desfecho trágico. Além de proporcionar, à partida, uma sensação extra de segurança a quem a usar e contribuir para quebrar o habitual ambiente de impunidade entre os agressores.

Estou curiosa para ver os números daqui a uns meses. Esperemos que resulte.