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Expresso

É mesmo este exemplo que queremos dar aos nossos filhos?

Qual a semelhança entre um tapete e uma menina? Os dois estão sempre aos nosso pés. Como é que as meninas ficam melhor? Caladas. Por que é que as meninas tomam tanta água? Porque resolvem 90% dos seus problemas a chorar. O que são vinte meninas colocadas em fila, orelha com orelha? Um túnel de vento. Se acabou de ler as frases em cima e acha estas supostas ‘piadinhas’ absolutamente inapropriadas, prepare-se que isto piora. Todas elas foram publicadas em livro e colocadas à venda na secção infantil de várias livrarias brasileira, com o título “Piadas sobre Meninas (para os meninos lerem)”. Sim, isto aconteceu.

Nos últimos tempos tenho escrito por aqui muitas vezes sobre casos verdadeiramente agoniantes que acontecem no Brasil, motivados por uma cultura misógina que ainda está totalmente enraizada. A educação e os exemplos diretos que damos aos mais novos, também tenho dito por aqui amiúde, parecem ser um motor de arranque para que este tipo de atitude discriminatória passe de geração em geração até aos tempos de hoje, tanto por terras brasileiras como por inúmeros outros países (o nosso incluído). Mas se há algumas décadas ninguém refletia sobre o impacto final que esta forma desigual de olharmos para os diferentes membros da sociedade tem, hoje já não há desculpa.

O mundo, mesmo que lentamente, tem dado passos em frente. Nas sociedades ocidentais, o papel da mulher mudou drasticamente nos últimos vinte anos, com uma nítida acentuação da consciência coletiva nos tempos que correm para a necessidade de mudança. Mudança essa que tem levado diferentes Governos a alterarem leis deficitárias, autoridades a tomarem medidas reforçadas e inúmeras associações e organismos públicos a lançarem ações de sensibilização sobre as questões de género. Posto isto, só me ocorre perguntar: como é que alguém se lembra de escrever um livro infantil como este? E mais grave: como é que uma editora aceita publicá-lo e distribuí-lo?

“Os dois livros foram uma infelicidade, uma ingenuidade”

A polémica em torno deste título – que, pelos vistos, também teve uma versão com piadas sobre meninos, “para as a meninas lerem” – voltou a ficar acesa quando nos últimos dias os autores da página de Facebook Literatortura encontraram um exemplar à venda e o partilharam, com algumas fotos das piadas publicadas naquelas páginas. Nas redes sociais as imagens espalharam-se como um rastilho e a editora viu-se obrigada dar esclarecimentos: depois de algumas queixas aquando do lançamento, os livros já haviam sido retirados do mercado em 2015. Contudo, algumas livrarias recusaram-se a devolvê-lo e, volta não volta, ele reaparece.

Em entrevista à revista Veja, a diretora da editora em causa assumiu mesmo o pedido de desculpas público e justificou: “Os dois livros foram uma infelicidade, uma ingenuidade”. Eu vou mais longe e não consigo deixar de dizer que, acima de tudo, foram uma tremenda inconsciência. Um desserviço público e cultural. É inconcebível que num país com inídices de violência de género tão acentuados quantos os do Brasil, não se pense nas consequências da publicação de um título como este, que apenas serve para perpetuar ideias e comportamentos totalmente discriminatórios diretamente num público que tem a sua personalidade em formação.

Claro que podemos dizer que a responsabilidade final é dos educadores, que têm o dever de formar as suas crianças. É verdade, mas uma editora não se pode demitir da sua responsabilidade social ao investir num livro do género, totalmente desadequado, desrespeitoso e discriminatório. Quanto aos educadores, também é urgente que percebam que não podem desvalorizar e sacudir a água do capote. Espero mesmo que os que se cruzarem com tal livro – ou que tenham tido a triste ideia de o comprar –, ao menos se sentem com as suas crianças e que desconstruam a mensagem inerente, dando exatamente o exemplo contrário. E que, já agora, entendam que as suas próprias atitudes no dia–a-dia devem ser em conformidade com essa mensagem.

O que não falta por aí são adultos que gozam com mulheres (entre outras formas de discriminação) em frente aos filhos, usando a eterna desculpa do “era a brincar”. A brincar, a brincar, o mundo fica na mesma e todos temos a perder com isso, incluindo as crianças de hoje que serão os adultos de amanhã. Quem sabe, os mesmo adultos que virão a sentir-se na legitimidade de ofender, ameaçar, humilhar, coagir e violentar o próximo, porque foi esse o exemplo que tiveram quando estavam a crescer.