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Expresso

A mensagem de Meryl Streep a Donald Trump

reuters

“O desrespeito convida ao desrespeito, a violência incita à violência. Quando os mais poderosos usam a sua posição para intimidar os outros, todos nós perdemos". Palavras da enorme Mery Streep, que ontem subiu ao palco da 74ª edição dos Globos de Ouro para receber o Prémio Carreira. Durante cerca de seis minutos, a atriz aproveitou o momento para fazer uma reflexão sobre os desafios que os Estados Unidos enfrentam após a eleição de Donald Trump. E sem sequer mencionar o nome do próximo Presidente do seu país, deixou-lhe esta mensagem com que começo o texto, quanto à importância de se saber liderar uma nação.

Afónica e visivelmente emocionada, Meryl Streep - que tem feito bandeira da importância da igualdade nos EUA - usou a aparente ironia e bom-humor para começar o seu discurso: “Vocês e todos nós nesta sala pertencemos verdadeiramente aos segmentos mais vilipendiados da sociedade norte-americana neste momento. Pensem nisso. Hollywood, estrangeiros e a imprensa”. Primeiro o público riu, depois percebeu que o discurso de Streep seria tudo menos uma paródia quando a gigante do cinema começou a enumerar as diferentes ascendências de vários dos artistas presentes na sala: bairros de lata de Nova Iorque, Etiópia, Índia, Israel, Itália e por aí fora. “Mas quem somos nós? E o que é Hollywood, de qualquer forma? Um monte de pessoas de outros sítios. Hollywood está cheia de forasteiros e estrangeiros”, lembrou a atriz, tocando num dos pontos mais polémicos da campanha de Trump. “Se os expulsarmos todos, não terão nada para ver a não ser futebol e combates de artes marciais."

Perante uma sala em silêncio sepulcral, Meryl Streep decidiu então contar qual tinha sido o desempenho que mais a impressionou em 2016. "Este ano, houve um desempenho que me impressionou, e não pelas melhores razões: o momento em que a pessoa que se senta no lugar mais respeitado do nosso país imitou um jornalista com deficiência, alguém sobre quem tinha superioridade no privilégio, no poder e na capacidade de ripostar. Ver isto partiu-me o coração e é algo que ainda não consegui esquecer, porque não foi num filme, foi na vida real."

A atriz referia-se a Trump, que durante um comício na Carolina do Sul ridicularizou publicamente o jornalista Serge Kovaleski, do The New York Times, que sofre de artrogripose, uma doença congénita rara que, entre outras coisas, afeta as articulações. "Este instinto para humilhar, quando é posto em prática por alguém da esfera pública, alguém poderoso, infiltra-se na vida de todos nós, porque de certa forma dá permissão aos outros para fazerem a mesma coisa. “O desrespeito convida ao desrespeito, a violência incita à violência.”, rematou Meryl Streep.“Quando os poderosos usam a sua posição para intimidar os outros, todos nós perdemos.”

A atriz aproveitou para agradecer à imprensa , e fez um apelo para que no futuro os jornalistas continuem a fazer um trabalho livre, onde não faltem denúncias de atos de intimidação, desrespeito e abuso de poder. Quanto ao privilégio de se ser uma figura pública consagrado pela máquina de Hollywood, deixou um recado aos colegas de profissão, mas que me parece ser adequado a todos nós: “Devemos relembrar todos os dias a responsabilidade de agirmos com empatia.”

Com Donald Trump prestes a tomar posse do país, é essencial que todas as vozes que se ergueram durante a campanha não se calem depois de dia 20 de janeiro. Os Estados Unidos irão enfrentar tempos complexos e o exercício da democracia, nas suas mais variadíssimas formas, nunca foi tão importante quanto agora. Para que o medo nunca se sobreponha a valores tão básicos como a igualdade a liberdade e o respeito. Este pequeno contributo de Meryl Streep é um bom exemplo disso.