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Expresso

Ataques a mulheres são “coisas que acontecem”, diz ministro 

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Noite de passagem de ano, época de festa com muita gente na rua. Tal como aconteceu em Colónia há um ano, várias mulheres foram atacadas por grupos de homens noutra cidade do mundo. Câmaras de segurança mostram raparigas e mulheres a serem assediadas, agarradas, molestadas com palavras e toques totalmente inapropriados. Se alguma chegou a ser abusada sexualmente não se sabe: a polícia garante não ter recebido queixas formais, o que também não surpreende porque no país onde tudo isto aconteceu as mulheres ainda temem o estigma social e familiar ao denunciarem casos destes. Sofrer em silêncio é demasiadas vezes a solução.

Se pensarmos nas palavras proferidas pelo ministro do Interior de Karnataka, em Bangalore, (citadas pela Al-Jazeera) sobre os acontecimentos do réveillon percebemos porque é que este medo e vergonha das vítimas continua tão acentuado. Em declarações públicas sobre o caso, o governante parece desvalorizar a situação, dizendo que “estas coisas acontecem" e que, em suma, uma parte da culpa recai sobre as roupas que as mulheres indianas usam hoje em dia. "Tentam copiar os ocidentais, não apenas na mentalidade mas também nas roupas. Algumas mulheres são assediadas, estas coisas acontecem."

Podemos ridicularizar as suas declarações, que entretanto geraram uma onda de indignação entre os defensores dos direitos das mulheres naquele país – onde os números de violência de género são assustadores. Mas antes de o fazermos, devemos também olhar um pouco para dentro e refletir sobre as nossas próprias atitudes perante casos de assédio e abuso sexual. Quantas vezes a primeira pergunta feita sobre uma vítima é “que roupa estava ela a usar?”. Ou o clássico “porque é que ela andava sozinha à noite?”. E sem esquecer os inacreditáveis: “ela tinha bebido?” e “Ela disse-lhe mesmo que não queria?”. Serão comentários deste género, tão comuns entre nós, menos graves e irresponsáveis do que o comentário deste governante indiano?

Fomentar a insegurança das vítimas e a impunidade dos atacantes

Continuamos a ter como ponto de partida a culpabilização da vítima e perguntas como as que descrevo atrás não passam disso mesmo. Podemos até achar que é mais grave ser um político a proferir tal desvalorização de atos inaceitáveis quanto estes – e sim, o cargo profissional confere-lhe, no mínimo, uma maior responsabilidade de dar o exemplo em matérias do género – mas o facto de, amiúde, questionarmos o comportamento da vítima em vez de questionarmos, a priori, o comportamento do atacante, coloca-nos a todos no mesmo patamar. Um patamar injusto e discriminatório para aqueles que são molestados e que precisam de ajuda, estejamos nós onde estivermos, seja ele o contexto cultural de Portugal, dos Estados Unidos, do Brasil ou da Índia, por exemplo.

Desvalorizar um crime tão grave quanto o abuso sexual é marginalizá-lo e normalizá-lo, fomentando a insegurança das vítimas e a sensação de impunidade dos atacantes. É importante que no futuro tanto os políticos, como as autoridades e a sociedade em geral deixem de dizer que estas são situações “que acontecem” para passarmos a dizer em conjunto que estas são situações “que não podem voltar a acontecer”. A importância das palavras, e o impacto que estas têm na criação de uma consciência coletiva mais justa, equilibrada e digna para todos, não pode ser menosprezada.