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Expresso

Homem chacina 12 pessoas, incluindo o filho. Mas a culpa é da ex-mulher

Ainda não tinham soado as doze badaladas de entrada em 2017 quando Sidnei Ramis de Araújo, um técnico de laboratório, com 46 anos, irrompeu numa festa familiar em Campinas. Com duas armas na mão chacinou doze pessoas, entre elas a ex-mulher e o filho. No fim, suicidou-se. Para trás ficam uma série de gravações de áudio guardadas no seu telemóvel e uma carta de despedida onde explica que aquela foi a forma encontrada para se vingar da mãe do filho. “Uma vadia”, palavras do assassino, que ficou com a custódia da criança depois de o ter denunciado por abuso sexual contra a criança.

Na carta, o homem explica que não é “machista”, mas afirma também que “os homens não batem na mulher sem motivo! Alguma coisa elas fazem pra irritar o agressor”. No seu caso, sente “raiva das vadias que se proliferam e muito a cada dia se beneficiando da lei”. Uma delas era a ex-mulher, que fugiu de casa e pediu o divórcio. Com isso em mente, premeditou uma chacina familiar para o dia da natal, quando poderia matar “o máximo de vadias” da família da ex-mulher, mas “a falta de prática” levou-o a não conseguir levar a cabo o plano. Aguardou então pela festa de fim de ano: naquela noite matou 9 mulheres e dois homens que as tentaram defender. Segundo relatos de testemunhas que sobreviveram à chacina, o filho de oito anos foi morto no fim de todo este cenário de horror, após ter questionado o pai pela morte da mãe.

Esta história macabra, que pode ser lida em todos os media brasileiros, está a chocar o paíss e a discussão sobre a cultura misógina, os números avultados do Brasil no que toca à violência de género e o femicídio - crime praticado em contexto de violência doméstica ou quando envolve menosprezo e discriminação especificamente em relação à mulher, previsto na legislação brasileira – voltam a ganhar destaque. Mas se para muitos é automaticamente claro não há nada que possa explicar ou desculpar tal comportamento, uma boa parte da opinião pública brasileira não concorda. Como diria o autor do crime na tal carta - uma opinião corroborada por centenas de comentários e declarações feitas sobre a chacina - a grande culpada de tudo é a “ex-mulher que lhe tirou a guarda do filho e o deixou perturbado”, “as malditas das feministas” e as “vadias” das mulheres, que estão cada vez “mais unidas, ardilosas, interesseiras e vingativas”.

“Julguem o que quiserem, cada um tem seu jeito de amar”

Depois de divulgada nos media brasileiros – que erro tão grave, que desserviço público! -, a tal carta de despedida do assassino tem sido partilhada tal qual rastilho descontextualizado, enquanto forma de incentivo a outros homens, que deveriam fazerem o mesmo em casos de alienação parental. Mas o que muita gente parece não perceber, é que mesmo que este fosse um caso complexo e doloroso do género (que os há e que a justiça não pode, nem deve, continuar a menospreza-los), não há desespero ou injustiça que justifique a chacina premeditada de 12 pessoas, incluindo a de uma criança com um tiro na cabeça. Como explicação para esse seu ato final, o homem, ironicamente, falou em Deus na sua despedida: “Filho, papai te ama muito. Julguem o que quiserem julgar, cada um tem seu jeito de amar. Deus não crucificou o filho dele por amor aos outros filhos, como fala na Bíblia? Eu não vou deixar você sofrer na mão dessa vadia mais não, filho.”.

Se depois de uma frase como esta ainda se tem dúvidas quanto ao estado de desequilíbrio desta pessoa, então não sei que mais será preciso. Isto pode ser muitas coisas, entre elas o ódio, a misoginia, a perturbação profunda – e os especialistas em psiquiatria poderão ter muito a dizer sobre o caso – mas definitivamente não é amor. Aliás, não podemos continuar a usar o amor como desculpa para os crimes que ocorrem dentro de relações de intimidade. E são tantos.

“Ela tem de pagar pelo que fez ao próprio filho”. Ou será ao contrário?

De acordo com os media brasileiros, nos últimos anos a ex-mulher de Sidnei Araújo terá apresentado cinco queixas contra ele, por agressão, perseguição e ameaças, entre elas a de morte. Em 2012, denunciou-o por tentativa de abuso sexual do filho. Tal suposição estava ainda sob investigação, mas quando alegadamente as primeiras avaliações psicológicas do agressor comprovaram que o homem tinha “comportamentos inadequados”, a mãe ficou com a custódia. Contudo, olhando para este caso e para o chorrilho de disparates perigosos que têm sido ditos e escritos publicamente sobre ele, a primeira assunção parece levar-nos a toda uma cabala engendrada pela ex-mulher para estragar a vida ao homem, coitadinho, e de deixá-lo pereturbado ao ponto de matar 12 pessoas, num crime premeditado, com nítida motivação de ódio contra as mulheres deixada por escrito, mas que continuamos a pintar e a tentar desvalorizar chamando-o de crime passional.

Basicamente, parece que foi ela que levou o homem à loucura, foi ela que o afastou deliberadamente do filho, foi ela que o manipulou a tal comportamento, foi ela que mentiu e que instigou a tal desfecho. Resumindo, ela estava “a pedi-las” por se ter protegido a ela e ao filho de alguém capaz de um ato como este, portanto, se há alguém a culpar por tal chacina, é ela. O facto de ter sido agredida repetidamente, perseguida, ameaçada de morte e de suspeitar de abusos sexuais feitos ao próprio filho, todos eles factores gravíssimos de perigo à integridade física e emocional da mãe e da criança, que a levaram à separação e ao pedido de ajuda na justiça, não interessa para nada.

Que uma pessoa nitidamente perturbada não compreenda com clareza quão errado isto é, muito bem, mas que tanta gente aparentemente no seu perfeito juízo siga a mesma linha de pensamento é um sintoma doentio de desequilíbrio geral. Voltamos à conversa da outra astróloga da televisão que perante uma mulher que é agredida pelo marido, a sua primeira reação é dizer-lhe que não se responde a violência com violência e que o ideal é ser mais carinhosa com o agressor para que este também mude a sua atitude no futuro. Pessoas: não é isso que acontece nas relações abusivas. E por mais que também existam casos de falsas denúncias, um dos grande problemas da violência doméstica continua a ser falta de credibilidade e de resposta rápida dada às vítimas, aliada à total sensação de impunidade e de direito de vingança do agressor quando perde o controlo da situação. É urgente repensar-se a forma estes casos são abordados.

Como diria o homem que levou a cabo tal chacina, os homens de hoje não têm de sofrer “por causa de um sistema feminista e de umas loucas”. Neste caso, a ex-mulher de Sidnei, “uma vadia”, tinha “que pagar pelo que fez ao próprio filho” com a separação do casal. A morte de 12 pessoas, incluindo a da criança, enquanto forma de suposta desmonstração de amor maior deste pai ferido, foi parte da solução. Mas a culpa, essa foi da mãe. Porque será que tanta gente concorda com isto?