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Expresso

Guardem os confettis: ainda faltam 169 anos 

Julgo que para contentamento geral, 2016 finalmente acabou. E com a entrada em 2017 podemos fazer mais um risquinho no calendário da igualdade de género, cujas previsões recentes garantem que – por este andar - só vai ser uma realidade mundial em 2186. Ainda falta muito para lá chegarmos, é certo. Mas por mais que o último ano nos tenha chocado das mais variadíssimas formas, acho que podemos olhar para ele como um momento inigualável no que toca à tomada de consciência para a importância da paridade na agenda nacional e internacional dos tempos de hoje.

Sim, houve manifestações em massa feitas por mulheres, marchas negras e protestos acalorados por um mundo menos discriminatório para meninas e mulheres. Criaram-se campanhas de sensibilização, desmultiplicaram-se os rostos que abraçaram a causa e que dela falaram publicamente com grande impacto, implementaram-se medidas políticas e fizeram-se diversas alterações à lei, em diferentes pontos do mundo. Nas redes sociais – que, mal ou bem, têm sido um veículo importantíssimo para levar informação às massas – a discussão pública vai passando por mutações interessantes, com muita gente a começar o ano a dizer “eu não sou feminista, mas” e a terminá-lo a abraçar a palavra com total consciência da sua importância e real significado (e outros tantos a extrapolá-lo também, temos de admitir). Mas o balanço, embora curto, já começa a ser positivo: a igualdade de género está em cima da mesa e de lá não vai sair tão cedo.

A violência e a discriminação contra meninas e mulheres vai continuar

Não acho, contudo, que 2017 vá ser “o” ano, com uma mudança digna de filme (é tão irrealista que só mesmo no grande ecrã isso poderia acontecer). A paridade continua longe de ser uma verdade inquestionável e os atos discriminatórios motivados pelo género vão certamente continuar, desde a violência sexual ao tráfico humano, passando pelo casamento infantil e pela dificuldade de acesso à educação, assim como a diferença de oportunidades laborais e salariais ou os juízos de valor e expectativas díspares do papel e do lugar do homem e da mulher aos olhos das diferentes sociedades. Em Portugal e no mundo, o que pode – e me parece que vai mesmo – mudar é a forma como olhamos para tais atos, conseguindo vislumbrar que desde os maiores e mais graves aos mais simples, estes são errados e que não contribuem para a justiça, a dignidade e o equilíbrio, três palavras tão essenciais no processo evolutivo das sociedades. Começando pelas próprias mulheres, que parecem finalmente estar a tomar mais consciência para os efeitos negativos de tais comportamentos discriminatórios totalmente enraizados, terminando nos decisores políticos e nas autoridades, que já não podem remeter a igualdade para tema de menor importância.

Em março deste ano, as Nações Unidas promovem a 61ª Comissão da Condição da Mulher, onde anualmente têm sido discutidos os progressos e quais as estratégias necessárias para eliminar a a discriminação e a violência contra as meninas, raparigas e mulheres no mundo (um dos Objetivos do Milénio da ONU). Tendo como ponto de partida as disparidades à escala global, o empoderamento feminino ao nível económico é o grande tema deste ano e os resultados que vão ser analisados prometem deixar os menos atentos chocados. Com Guterres na liderança, e a assumir desde logo um compromisso quanto à paridade dentro da organização, esperemos que as Nações Unidas possam servir de exemplo com mais mulheres a serem chamadas a lugares de topo.

Capacidades, qualificações e experiência VS género

Em termos económicos, por cá o cenário não prima pela igualdade. As mulheres representam 60% da força laboral mas continuam a receber, em média, menos 18% que os homens. No que toca ao acesso a cargos de poder e de decisão na administração pública e nas empresas cotadas em bolsa, a paridade continua a ser ridícula, por mais que os números dos resultados académicos das mulheres deste país sejam - já há um bom tempo - mais elevados do que os dos homens. Os dados são claros no próprio site da Comissão para Igualdade no Trabalho e no Emprego: 59% das pessoas diplomadas com ensino superior e 54,8% das pessoas doutoradas são mulheres. No entanto, 91% dos lugares de membros dos Conselhos de Administração das 17 maiores empresas cotadas em bolsa são ocupados por homens.

Podemos não gostar de admitir ou até mesmo meter a cabeça debaixo da areia e dizer que isto é uma grande falácia, mas para além das capacidades, qualificações e experiência, o género ainda continua a ter peso na hora de decidir quem fica com que cargo. Um dos exemplos máximos é a discriminação relacionada com a maternidade – desde entrevistas de emprego totalmente intrusivas e discriminatórias, a obstáculos na ascensão profissional e a pseudo-contratos com cláusulas ilegais que proíbem uma gravidez ou que penalizam a mulher por tirar todo o período de licença prevista por lei -, que continua a ter números assustadores, principalmente aqueles que espelham o medo de fazer denúncia (a CITE também muito poderia falar sobre isto) .

Quando olhamos para a política nacional, voltamos a não ter um bom exemplo em termos de paridade: cerca de 90% dos nomeados para funções governativas em Portugal desde o 25 de abril foram homens. Com a chegada das autárquicas, por exemplo, convém relembrar que também não chegam sequer aos 10% os municípios portugueses que são liderados por mulheres. Mais uma vez: não há profissionais do sexo feminino com capacidade e valor para assumir tal cargo ou será que as regras do jogo – com um passado histórico, cultural e social que não podemos negar - permanecem tão viciadas que o acesso lhes continua a ser mais difícil ou, até mesmo, vedado?

Definitivamente, haverá mais gente em 2017 a questionar-se sobre este tipo de situações e a discussão continuará acesa. Mesmo sem uma reforma (necessária!) no que toca ao nosso sistema de ensino e à importância da implementação de educação para a cidadania, as gerações mais novas parecem também estar a despertar para a importância da paridade. Cabe-nos a nós encaminhá-los nessa reflexão em vez de lhes fecharmos a porta, com os vícios comportamentais de décadas. A tomada de consciência leva ao desconforto e o desconforto leva à indignação. Diz-nos a História que a indignação muitas vezes quebra o conformismo e que quando este é quebrado, então a mudança tem pernas para andar. Mesmo que seja devagar, o importante é que ande.