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Expresso

Masturbar frutas para desmistificar a genitália feminina

Stepahine Sarley

“Que nojo”, “é incrível”, “que merda é esta?”, “arte no seu melhor”, “é obsceno”, “que bela ideia”, “esta tipa tem problemas”, “isto é pornografia”. Quem diria que um vídeo tão simples como o de um dedo indicador a tocar numa toranja cortada ao meio podia gerar tanta controvérsia, ao ponto de um perfil de Instagram acabar por ser desativado múltiplas vezes ao longo do último ano. O que na realidade não passa de um conjunto de imagens de frutas e de dedos que lhes tocam é repetidamente interpretado como conteúdo sexual. E a simples sugestão de que o formato da fruta pode remeter para uma vagina, neste caso a ser masturbada, aparentemente é suficiente para gerar censura, desconforto e insultos.

A ilustradora Stephanie Sarley publicou o primeiro de inúmeros vídeos e fotografias do género em janeiro passado e, quase um ano depois, já ouviu e viu de tudo na interação com quem passa pela sua conta de Instagram. Há quem considere o seu trabalho grotesco e quem se sinta no direito de a insultar, porque tais imagens só podem sair de alguém que tem “uma mente porca” ou “perturbada”. Mas há também muitos que se excitam com as imagens, que lhe aplaudem a criatividade e que lhe fazem vénias pela forma “humorada” como tem conseguido quebrar tabus em relação à representação da vagina. E este parece-me ser o cerne da questão.

A vagina ainda causa um grande incómodo. Neste caso, um incómodo que não se fica pelo simples virar da cara, mas que passa também pela necessidade de insulto como resposta, pela repulsa e pela censura. Mesmo que o único elemento do corpo humano usado nestas imagens seja um simples dedo. Será que se a artista tivesse começado por imagens de pepinos e bananas – com também tem feito nos últimos tempos – a reação teria sido a mesma? Ou será que o problema está especificamente no facto de a fruta escolhida inicialmente remeter para o formato de uma vulva?

Instagram

Histórica, social, cultural e religiosamente, basta olharmos para trás e percebemos que a vagina continua a ter o ónus do pecado, de algo que tanto é sujo como é uma preciosidade, que é possuído ou oferecido, que deve ser mantido escondido e, é claro, guardado para alguém especial (esse alguém raramente é a própria mulher, porque isto do prazer feminino também faz comichões). Desde pequenas que continuamos a ser educadas para manter as pernas fechadas “porque é feio”, como se tivéssemos algo a esconder do mundo. Se um menino coça os testículos, invariavelmente os adultos até acham piada e dizem-lhe simplesmente para não coçar. Se for uma menina a coçar entre as pernas, a reprimenda ganha outras proporções – como já ouvi mais do que uma vez –, com um invariável “as meninas não mexem aí” ou “não sejas porcalhona”. A barreira entre as regras de etiqueta e a mensagem castradora subentendida que muitas vezes passamos com tais expressões é demasiado ténue.

Crescemos a achar que é natural os rapazes masturbarem-se, mas há algo de temível quando as raparigas o fazem (ainda há uns anos o grande inquérito do Expresso sobre O Sexo dos Portugueses revelava que uma larguíssima percentagem das mulheres nunca ou raramente o faz). No caso das miúdas, isto da masturbação surge quase como se fosse um perigo, ou até mesmo uma ofensa – outros diriam, um pecado – elas despertarem para o prazer, com noção das reações do seu corpo e de como e de onde gostam de ser tocadas. Algo que, convenhamos, só pode ser bom a longo prazo, um passo em frente para uma sexualidade mais emancipada e prazerosa. Usando uma expressão que atualmente está em voga, o empoderamento feminino também passa por aí.

Contudo, mesmo para muitas mulheres, a vagina continua envolta num certo embaraço. Ora porque se diz amiúde que é feia, ora porque tem um odor estranho, ora porque tem pelo, ora porque é húmida, ora porque sangra em certa altura do mês. São tantas as desconsiderações que se fazem repetidamente a esta parte da anatomia feminina que, acreditem, há quem passe uma vida inteira sem agarrar num espelho para ver melhor a sua. E este auto-desconhecimento, embora comum, não nos leva a bom porto. A verdade é que continuamos a sexualizar a imagem feminina a uma nível obsceno para vender tudo e mais alguma coisa, e não nos zangamos com isso, achamos simplesmente normal. Mas quando vemos uns dedos a enfiarem-se nas partes moles de uma meloa ou um dedo a passar suavemente nos contornos de um morango e a demorar-se numa pequena saliência dessa fruta, sentimo-nos de certa forma incomodados, sem sabermos se gostamos ou não do que estamos a ver. Ou se é sequer normal tal imagem.

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A diferença de reações às sugestões destas imagens também é interessante. Uma papaia que surge aberta, com leite derramado no seu interior, parece agradar à maioria dos comentadores. Já quando surgem uns dedos a enfiarem-se numa laranja-de-sangue, de onde escorre depois um sumo vermelho vivo, surge muitas vezes a expressão “que nojo”. Nojo do sumo? Ou da sugestão de uma vagina que é estimulada durante a menstruação? Que nojo é este, de onde é que ele vem de forma tão automática e porque é que ele persiste de forma tão categórica?

Talvez por serem tão absurdas, mas ao mesmo tempo tão sugestivas, estas imagens têm o condão de nos fazer repensar essas reações. São uma ode clara ao toque e à auto-exploração feminina – não se esqueçam que os dedos que tocam na fruta são os de uma mulher e isso é algo muito simbólico. Mais do que um trabalho artístico sobre frutas ou vaginas, a mim parece-me que é uma trabalho sobre a importância de começarmos a desmistificar e a normalizar a genitália feminina, retirando-lhe o cariz pornográfico, sujo e proibido, totalmente errado e perturbador, que tantas vezes carrega consigo.

Como diria um crítico da New York Magazine: Stephanie Sarley, “isto é genial”.