Siga-nos

Perfil

Expresso

Quem é que a matou: os deuses, os homens ou a menstruação?

NAVESH CHITRAKAR/ Reuters

Imaginemos que durante os dias do mês em que estamos menstruadas, éramos obrigadas a ficar isoladas da sociedade, metidas numa gruta de pedra ou numa cabana de madeira, longe de tudo e de todos. Porquê? Porque dizem as crenças religiosas que o nosso estado de “impureza” provocado pela menstruação poderia causar azares e danos irreparáveis aos que nos rodeiam caso lhes tocássemos. Então e os danos que tal isolamento pode causar às meninas e mulheres causar durante esse dias? Isso não interessa para nada, as impuras somos nós e só temos é de aguentar a sentença dos deuses. Posto, quando na semana passada mais uma adolescente foi encontrada morta na sua ‘toca menstrual’, numa zona remota do Nepal, poucos terão sido os que ficaram chocados dentro da comunidade. Mas a morte não escapou ao radar dos muito ativistas que, ano após ano, têm feito um trabalho incansável no terreno para pôr fim a tal ritual

Já há uns tempos falei aqui sobre o chhaupadi, uma tradição religiosa hindu que foi declarada ilegal em 2006 pelo Supremo Tribunal do Nepal. Contudo, nas zonas mais remotas do país a tradição continua viva, seja verão ou inverno, faça sol ou faça frio. Mulheres e meninas continuam a ser isoladas das suas comunidades e privadas das suas vidas quotidianas. Não podem estar com a família, não podem ir à escola (mais uma vez a desvantagem na progressão da educação), não podem cozinhar, não podem participar em eventos da comunidade, não podem tocar em ninguém, como se transportassem consigo uma doença contagiosa pelo simples toque de um dedo ou uma roçar de um braço ((já agora, tal como ditava a Bíblia noutros tempos, convém recordar). O mito vai tão longe que até mesmo no que toca à alimentação as restrições são grandes: pão seco e arroz é a dieta daqueles dias. Acredita-se piamente se tocarem numa vaca, esta nunca mais dará leite, e que o mesmo acontecerá com as árvores de frutos ou com a terra onde estão plantados vegetais.

Nem todas têm a sua própria cabana, portanto não é incomum juntarem-se várias mulheres e meninas menstruadas no ritual de isolamento, mesmo que o espaço não lhes permita sequer esticar as pernas. Escusado será falar da total falta de condições e higiene, que nos dias de fluxo menstrual é ainda mais essencial. Nenhuma mulher gosta disto do Chhaupado, mas é raro alguma recusar-se a cumprir o ritual. Mesmo todas elas sabendo que existem casos de mulheres acabam por morrer com as baixas temperaturas que se fazem sentir no inverno, com os ataques de animais - muito comuns são as mordidelas de cobras -, ou violadas por homens que aproveitam o isolamento para atacar as vítimas das formas mais macabras (para isso já não tenham medo da ira dos deuses?, pergunto eu).

“Mudar mentalidades e atitudes sociais é um processo demorado”

Nos últimos anos, várias ONG’s têm tentado fazer chegar informação a estas aldeias mais remotas, explicando que tal ritual não tem qualquer lógica e que põe em perigo a vida das mulheres que a ele são obrigadas. Mas por mais que tal prática já seja ilegal, poucos casos chegam à justiça. A ignorância, essa leva a que o ritual continue a ser aceite por homens e mulheres nestas aldeias, onde os mitos que envolvem a palavra sagrada dos deuses são quem mais ordena. E foi em nome desses mesmos deuses que mais uma menina de 15 anos morreu em Achham, na semana passada. Isolada num casinhoto de lama e pedra, fez uma fogueira para se aquecer e inalação de fumo acabou por ser fatal. Em pleno século XXI.

Ao The Guardian, o Ministério da Mulher e da Criança nepalês dizia que “mudar mentalidades e atitudes sociais é um processo demorado”. Não podia estar mais de acordo, esse é mesmo o cerne da questão. Ao longo da história da humanidade muitas voltas já se deu em torno dos porquês da menstruação, com as múltiplas religiões a ditarem sentenças sagradas sobre a suposta impureza feminina e os males que podem com isso causar aos pobres dos homens.

Claro que podemos – e devemos – ficar chocados com o que ainda acontece no Nepal nos dias de hoje, mas também não devemos menosprezar o facto de, mesmo países mais desenvolvidos, as palavras “sujo”, “nojento” e “impuro” continuarem a estar totalmente associadas a algo que não passa um processo biológico natural. Um processo que ainda mete nojo, causa incómodo, gera piadinhas de mau gosto e que continua a ser encarado com pudor, como algo que deve ser escondido. Do alto da nossa sociedade evoluída, sem deuses pelo meio como bodes expiatórios, talvez fizesse sentido refletirmos sobre isto.