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Expresso

Este chá pretende ajudar mais de 120 idosos

foto A Cidade na Ponta dos Dedos

Conheci a Rosa há uns anos quando a minha cadela – que finalmente deixará de ser uma coisa aos olhos do Código Civil – lhe foi pedinchar festas num final de tarde. Não fosse a Bonnie e o seu à vontade canino, cuja espontaneidade consegue ser contagiante, e provavelmente eu teria demorado muito mais tempo até abordar aquela senhora que todos os dias via parada na mesma esquina da rua, ao final da tarde. A Rosa, sempre delicada, com olhar terno e luvas vermelhas de veludo na mão, tem sessenta e muitos anos, uma boa parte deles vividos naquela rua aonde volta todos os dias. A solidão, essa conhece-a por tu principalmente desde que lhe foi retirada a casa onde cresceu e cuidou dos pais até à sua morte, abdicando da sua própria vida pessoal. Hoje, visivelmente fragilizada e afetada psicologicamente pelo afastamento das suas raízes, vive sozinha, num bairro social longe da rua e da casa que eram tudo para si. Por isso mesmo, todos os dias volta àquela esquina para olhar novamente para a varanda onde outrora foi feliz. Todos os dias.

A Rosa, com a sua delicadeza da palavras, em contraste com o desalinho com que traz o corpo, torna sempre o meu dia mais rico. Cruzamo-nos, a Bonnie faz-lhe invariavelmente uma festa, ela sorri e damos uma beijinho, por vezes um abraço. Falamos sobre a vida, a que é a minha e a que foi a dela. Sinto que a sua expressão, que já várias pessoas na mesma rua me disseram ser alienada, “coitadinha”, se torna mais leve. Provavelmente porque tirando nos momentos em que faz as compras diárias de comida que costuma trazer pendurada num saco plástico, poucas vezes fala com alguém. Ou alguém lhe dirige a palavra. E isso foi algo que rapidamente percebi, até porque, com parcas palavras, ela mesma já mo disse: abrir-lhe o meu sorriso, perguntar-lhe com afeto como está ela, fazer-lhe um elogio, dar-lhe atenção e ouvir o que ela tem para contar – cuja sabedoria tantas vezes me deixa a refletir - faz com que o seu dia se torne melhor, menos vazio. Mesmo que tudo isto aconteça em poucos minutos.

Um chá que pode ajudar mais de 120 idosos

Conto-vos esta história da minha inusitada amizade com a Rosa porque é sempre nela que penso quando oiço os números do abandono e da solidão na terceira idade. Hoje, com o natal à porta, essa altura do ano em que tantas vezes no esquecemos do essencial em prol da andar na correria das compras de presentes que ficam bem debaixo da árvore, lanço-vos um desafio: se consideram importante o lufa-lufa das compras, aproveitem-no para, ao mesmo tempo, ajudarem a população idosa do centro de Lisboa (caso andem por estes lados). Como? Comprando o chá que nasceu do projeto social “Todos Temos uma história”, criado em parceria pela Sancha Trindade (autora do programa A Cidade na Ponta dos Dedos) e pelo Sebastian Filgueiras, fundador da Companhia Portugueza do Chá (com loja em Lisboa). Sem fins lucrativos, a venda de cada lata deste chá reverte para a Associação Mais Proximidade Melhor Vida, que apoia mais de 120 idosos residentes na Mouraria e Baixa Pombalina, muitos delas acamados e isolados do mundo.

Tal como se pode ler no site desta iniciativa, Portugal é o pais mais envelhecido da Europa. 34,2% da população tem mais de 65 anos. Lisboa é a cidade capital mais envelhecida do continente Europeu. 71% da população residente, com mais de 50 anos está reformada. Cerca de 50% da população idosa tem muita dificuldade ou não consegue realizar pelo menos uma de seis atividades básicas do dia a dia. Estas dificuldades afetam mais de um milhão de idosos em Portugal. Mais de metade das quais vivem sozinhos ou acompanhadas apenas por outros idosos.

Não tenho por hábito falar aqui de produtos, mas a causa por trás deste fez-me quebrar a minha regra pessoal Convido-vos a ver o fortíssimo vídeo da campanha, que partilho em baixo, onde podem ouvir na primeira pessoa o que alguns dos idosos apoiados por esta iniciativa têm a contar sobre o seu percurso. Acreditem, são verdadeiras lições de vida, que nos obrigam a refletir sobre o que realmente andamos aqui a fazer. E sobre a importância de aprendermos a sorrir um pouco mais ao próximo. O natal, diria eu, deveria ser sobre isso.