Siga-nos

Perfil

Expresso

Mulher empalada até à morte na Argentina: o que significa isto? 

Fez esta semana dois meses que a Argentina foi palco de uma greve nacional simbólica, seguida de uma marcha, para chamar à atenção do país para a tragédia da violência de género. O dia foi considerado uma quarta-feira negra, de luto por todas as mulheres 286 mulheres que foram assassinadas na Argentina, em 2015. A marcha, à qual aderiram milhares de mulheres vestidas de negro, foi também uma homenagem à adolescente Lucía Perez, 16 anos, cujo assassinato macabro chocou aquela nação: foi drogada, violada e empalada até à morte por dois homens, um deles um jovem com quem mantinha uma relação íntima. Hoje não é quarta-feira, mas a história semelhante que aqui vos conto volta a deixar aquele país de luto.

Mais uma vez, uma mulher volta a ser morta com requintes de crueldade, incluindo o empalamento. Irma Ferreyra da Rocha, 47 anos, mãe de sete crianças, foi encontrada numa berma de estrada em agonia. Depois de uma festa à noite, local onde foi vista pela última vez, foi levada para um túnel onde foi agredida, violada e torturada. Além dos múltiplos hematomas espalhados pelo corpo, os ferimentos causados por um arbusto enfiado por via anal causaram-lhe danos físicos irreparáveis. Três cirurgias depois, a mulher acabou por morrer. O atacante ainda anda a monte, mas o principal suspeito é o namorado, de 27 anos, com quem estava na tal festa.

No que toca a femicídio – que na Argentina é contemplado pelo Código Penal – as contas são estonteantes: a cada 30 horas que passam, uma mulher é assassinada naquele país, números que conseguem ser ainda bem maiores quando pensamos noutras nações vizinhas. Dados oficiais do Ministério de Segurança argentino confirmam que entre 2008 e o ano passado as agressões contra a mulher aumentaram 78%. O mapa da violência contra o sexo feminino na Argentina, traçado pelo Registo Nacional de Femicídios, é desolador: a maior parte das vítimas é morta por cônjuges ou ex-cônjuges e em 20% dos casos estas já haviam denunciado seu agressor antes de serem assassinadas. Apenas 5% dessas mulheres foram vítimas de violência por parte de estranhos.

Mulher: um elo mais fraco que pode ser subjugado e violentado

Não consigo ser a favor do femicídio enquanto agravante de um Código Penal porque parte, à cabeça, de um princípio de diferenciação de género aos olhos da própria lei, que deveria consagrar os cidadãos como iguais. Em vez de contemplar os homicídios de mulheres por razões de género (quando envolve violência doméstica ou menosprezo e discriminação especificamente em relação à mulher), considero que talvez fosse mais justo contemplar os homicídios no geral por motivações de género, abarcando mulheres e homens (que, não podemos esquecer, também são alvo de tais crimes, embora em escala muitíssimo menor). Contudo, quando olhamos para histórias como esta, convicções como a que exprimo atrás acabam, invariavelmente, por ficar abaladas.

Sei que corro o risco de me repetir, mas a mulher continua a ser tida, amiúde, como um elo mais fraco que pode ser subjugado e violentado. E não o digo com prazer, nem muito menos querendo generalizar ou envergonhar os homens como um todo, mas essa violência continua a ser maioritariamente perpetuada pelo sexo masculino. O que nestes últimos casos ocorridos na Argentina – e que são um espelho do que se passa em tantas outras partes do mundo - consegue ser ainda mais perturbador é a constatação das circunstâncias em que estes homicídios acontecem.

Primeiro, acontecem maioritariamente em relações de intimidade, na maioria dos casos por motivos passionais. Depois, vem a questão da crueldade. São crimes de verdadeira agonia prolongada, com prazer sentido pelo agressor na sua posição de quem domina tal jogo macabro. A intenção, entendam, não é ‘só’ matar, é também humilhar, aterrorizar e subjugar a mulher através da sevícia emocional e corporal, enquanto demonstração de poder. Os séculos passam, o mundo evolui, mas esta necessidade de medição de forças entre géneros, usando a perversidade como arma de arremesso sobre uma pessoa aterrorizada e um corpo indefeso, invariavelmente, mais frágil e fraco, mantém-se. Não me venham dizer que isto não merece a nossa atenção.