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Expresso

Foram mortas por se estarem a divertir

O caso remonta a 2010, quando numa pequena vila no norte do Paquistão surgiu um vídeo gravado em telemóvel com cinco adolescentes a divertirem-se numa festa. Durante uns segundos, as imagens mostravam o grupo de miúdas a rir, a bater palmas e a cantar. Depois, aparecia também um rapaz, a dançar num canto daquilo que parecia ser a mesma sala. Misteriosamente – ou nem por isso - Bazeegha, Sareen Jan,Begum Jan,Amina e Shaheen, despareceram do mapa depois destas imagens terem chegado aos olhos do conselho tribal da sua pequena aldeia

A história tem uns anos, e o caso, aliás, tinha mesmo acabado por ser arquivado pela autoridades paquistanesas, que se deixaram levar pelo peso das questões culturais que durante séculos permitiram os crimes de honra no país. Difícil de quebrar foi também o silêncio dos anciãos da aldeia, a cumplicidade dos habitantes da comunidade e o muito medo que perseguia aqueles que queriam respostas mais claras sobre o destino das jovens. Dois dos irmãos de uma delas, por exemplo, acabaram por morrer em acidentes que ficam por explicar, depois de terem quebrado o silêncio e questionado a situação. Algumas das famílias tiveram mesmo de partir, levando com elas a sua versão, negada, dos factos. E o temor pelas próprias vidas.

Se até aqui achamos que esta história é totalmente macabra, acreditem, tudo isto consegue ir ainda mais longe. Quando novas suspeitas sobre o caso foram levantadas, foi enviada à aldeia uma equipa para reavaliar a investigação. Primeiro, as famílias recusaram falar, depois apareceram três raparigas, com visíveis semelhanças físicas, que tinham sido trazidas para a vila, onde vivam sob a identidade das miúdas desaparecidas. Não houve interrogatório porque elas só falavam um dialeto e não se conseguia manter o diálogo. Posto isto, restou fazer um reconhecimento facial, baseado no vídeo, para se fechar novamente a investigação: eram parecidas. E isso bastou. Para todos os efeitos, concluiu-se que as raparigas estavam vivas, de boa saúde e que tudo aquilo fora um mal entendido. Estávamos em 2012 e nunca mais se falou nisto.

Esta história de horror, que tão bem reflete quão pouco pode valer a vida de uma mulher no Paquistão – onde miúdas como estas podem ser simplesmente mortas por se terem divertido na presença de um homem, e substituídas por outras parecidas sem que ninguém questione a fundo o que lhes aconteceu - volta a ser contada esta semana na edição online do Washington Post. Porquê? Porque quatro anos depois, e contra todas as expectativas, o caso foi reaberto. Como? Porque o irmão de umas das vítimas não desistiu de repor a verdade e, aproveitando o recente projeto de lei que foi aprovado no Paquistão (que prevê 25 anos de cadeia para crimes do género), lançou uma petição que acabou por ser aceite pelo Supremo Tribunal. Lá, deparou-se com um novo juiz que parece estar alinhado com a sua demanda: é preciso parar com a desvalorização destes atos macabros.

Quatro anos depois este caso pode servir de exemplo

A investigação voltou à aldeia das jovens desparecidas e coisas tão simples, quanto confirmar dados de nascimento das jovens que agora lá vivem sob falsas identidades, foram finalmente feitas. As idades e as impressões digitais não batiam certo. Num dos casos, tinham mesmo mutilado a miúda para que não fosse possível fazer tal comparação. Os líderes religiosos da aldeia mantêm-se firmes na sua versão dos factos, corroborados por uma comunidade amedrontada, mas agora as autoridades locais começam a ver-se forçadas a fazer o seu trabalho. E as provas que mostram que a história está mal contada começam a surgir.

Ainda estamos longe do seu desfecho, mas parece-me desde já que este é um daqueles casos que podem servir de exemplo a toda uma nação que ainda não percebeu que os crimes de honra são apenas isso, crimes. Só no ano passado, 1096 mulheres (e 88 homens) foram mortas por familiares que acreditavam que estas tinham desonrado o nome da família. Quase 200 destas vítimas eram menores de idade. Em 2015 tinham sido à volta de 1000 e em 2013 cerca de 870. Já várias vezes falei aqui sobre isto: a honra da família e da comunidade enquanto bem maior começa desde cedo neste país. Homens e mulheres são educados para acharem normais estes crimes, como se fossem de alguma forma justificáveis. Esse pensamento retrógrado e discriminatório aliou-se a uma lei deficitária, que permitiu durante décadas que o perdão familiar dado ao criminoso em casos destes fosse o suficiente para que justiça não acontecesse. Invariavelmente, ninguém era condenado.

Com esta recente alteração à lei, com juízes liberais como este, que se alinham com a necessidade de mudança no país, e com o mediatismo crescente do tema, tudo isto pode começar a mudar. A passos muito lentos, é certo, porque a justiça demora a ser posta em prática, e porque as mentalidades não se alteram de um dia para o outro. Principalmente em meios rurais como aquele onde viviam Bazeegha, Sareen Jan, Begum Jan, Amina e Shaheen. Seja como for, abriu-se recentemente uma porta para um caminho bem diferente do conhecido: o da responsabilização e da punição. Sem esta pressão, provavelmente a mudança não aconteceria tão cedo, mas quando isto acontece, mostra-nos a História, há uma engrenagem que tende a rodar. Mais lenta o mais rápida, o importante é que rode para o caminho certo.