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Expresso

Matar uma filha ou deixá-la ser violada por soldados?

Homens sírios, retidos com as suas famílias no caos de Alepo, questionam líderes religiosos sobre a possibilidade de matarem as próprias mulheres e filhas para que estas não sofram o horror dos abusos sexuais perpetuados tanto pelos rebeldes, como pelas forças de Assad. Forças essas que, de acordo com fontes humanitárias no terreno, têm feito verdadeiras chacinas de civis ao irromperem pela cidade. Ao mesmo tempo, há também relatos de famílias que cometem suicídio coletivo, tal como inúmeras partilhas de frases finais de civis nas redes sociais, muitas delas de mulheres que preferem tirar a sua própria vida em vez de passarem pelo incerteza do que lhes pode acontecer às mãos dos diferentes soldados. Relatos de desespero, cuja veracidade não se pode comprovar, é certo. Tal como tantas outras coisas em tempo de guerra. Mas que é impossível nos deixarem indiferentes.

É inqualificável como mais uma vez falhamos a cada minuto que passa. Como voltamos a assistir ao massacre de civis, desta vez praticamente em direto. Como continuamos a considerar que as consequências de uma ação internacional sem o apoio de todas as partes conseguem ser maiores do que as consequências desta eterna inação. A morte em massa de tantas pessoas inocentes que não têm como, nem para onde fugir, é o exemplo máximo deste nosso contínuo falhanço. Não me vou, contudo, alongar sobre a situação inenarrável vivida em Alepo, deixo isso para os colegas comentadores de política internacional, que o farão certamente bem melhor que eu. Mas dada a envolvência nas questões femininas que por aqui reflito diariamente, não posso deixar de me focar no que está descrito no início desde texto. Independentemente de um inocente ser um inocente, ou de ser tão chocante a tortura e a morte de um homem quanto a de uma mulher.

O corpo da mulher, o eterno troféu de guerra

Voltamos à eterna questão do uso e abuso do corpo feminino enquanto troféu em tempos de guerra. Entendam, há meninas de cinco anos a serem violadas até os seus pequeninos corpos não aguentarem mais. Na guerra, os homens são mortos. Já as mulheres e as meninas são brutalizadas de todas as formas, antes de serem mortas ou de ficarem retidas em cativeiro para as mais hediondas sevícias enquanto o corpo e a alma resistirem. Se isso não é também uma forma de morrer em vida, então não sei o que é. Ainda esta semana, Nadia Murad e Lamiya Aji Bashar – que sofreram os piores horrores às mãos do Daesh – disseram a seguinte frase ao receberem o prémio Sakharov: “Todos os dias elas morrem mil vezes”. Referiam-se às mais de 3500 mil mulheres e meninas yazidi que continuam a ser escravas sexuais dos militantes do auto-proclamado Estado Islâmico. Mulheres essas por quem também muito pouco esforço real fizemos, ou melhor, fazemos, para salvar.

Esta semana, com a entrada em força das forças de Assad em Alepo, há algo que está presente na cabeça de muitos milhares de inocentes que por lá continuam: a angústia e a certeza de saberem de antemão que as mulheres e meninas muito provavelmente podem acabar por ser violadas, seja por soldados de um lado ou do outro. É horrível, impensável e angustiante, mas não é preciso muito para percebermos friamente que talvez também nos passasse pela cabeça preferirmos a morte rápida em família, do que a perspetiva de tortura sem fim daqueles que mais amamos.

100 anos de história, 100 anos de um comportamento que se repete

No último ano e meio, muito se tem falado com horror sobre os abusos animalescos feitos por do Daesh, mas as violações em massa, o abuso de poder e a exploração sexual em contexto de guerra não é novidade na história mundial. Aliás, é um cliché, daqueles que todos sabem, mas sobre o qual ninguém quer falar. Se olharmos para os últimos 100 anos da história da humanidade (já nem vou mais longe), perdemos conta às situações em tanto semelhantes ao que se passa na Síria.

Dou-vos alguns exemplos: durante a Segunda Guerra Mundial, os soldados japoneses raptavam mulheres e meninas sul-coreanas e punham-nas em bordéis para que os soldados pudessem “aliviar a tensão”. Violadas dezenas de vezes por dia, eram as chamadas mulheres de conforto e só em 2015 viram justiça ser feita. Na mesma época, os russos fizeram o mesmo às alemãs, por exemplo, e os alemães fizeram-no às russas, às polacas e por aí fora. Os soldados norte-americanos fizeram o mesmo a milhares de meninas e mulheres vietnamitas durante a Guerra no Vietname. E durante a Guerra na Bósnia, os soldados Sérvios tinham verdadeiros campos de violações. Nos últimos anos, o Boko Haram fez o mesmo na Nigéria, raptando milhares de mulheres para se tornarem esposas dos seus soldados. Só no Congo, estima-se que mais de 200 mil mulheres e crianças já tenham sido violadas em contexto de guerra.

Não há nada que desculpe ou torne menor tal selvajaria, quer os alvos sejam mulheres ou homens (que também o são, mas com muito menos expressão). Uma violação em contexto de guerra não pode ser vista “apenas” como uma violação. Por mais hedionda que seja a restante realidade em torno do mesmo conflito, nada legitima a sua desvalorização e há que pensar porque é que os séculos passam e este comportamento é sempre igual. São crimes de guerra, tão simples e terrível quanto isso. Mas no que toca a ações que ajudem a evitar tais abusos, - tal como o contínuo banho de sangue de tantos inocentes - já percebemos que o falhanço continua a ser a palavra de ordem.