Siga-nos

Perfil

Expresso

Sai a “Mulher-Maravilha”, entra uma mulher de carne e osso 

Em outubro falei aqui sobre a controversa nomeação da ‘Mulher-Maravilha’ – sim a personagem – para Embaixadora do Empoderamento Feminino das Nações Unidas. O que parecia uma estratégia mediática certeira, aquando do 75º aniversário da personagem da DC Comics, revelou-se um péssimo, embora subtil, exemplo, dado precisamente por uma organização que tem dedicado inúmeros esforços no combate às discriminação de género mundo fora. Dois meses depois, com vários protestos e uma petição pelo meio, a ‘Mulher-Maravilha’ perdeu o seu cargo. E os motivos são fáceis de perceber.

São vários os fatores em causa, como tentei refletir por aqui na altura, mas há dois que me permito a repetir numa curta análise: Primeiro, voltámos a ir buscar uma heroína que ao longo das décadas surgiu sempre híper-sexualizada na sua imagem, com uso e abuso dos habituais estereótipos relacionados com o corpo feminino – algo que a própria ONU tem tentado combater nas suas campanhas. Não me parece que seja algo frutífero, ainda mais quando falamos de empoderamento feminino. Inconscientemente, voltamos a validar a ideia de que para serem importantes e se destacarem nas suas vidas, não bastam os seus feitos ou as suas capacidades, as mulheres têm de ter aparência de sex symbol. Segundo, recorrer a uma personagem de ficção, quando existem tantas mulheres reais com trabalho feito em prol dos direitos humanos, parece-me redutor. Quase uma maneira de continuarmos a dizer que as mulheres de carne e osso não têm estrutura para tal posição. Com tantas pessoas com trabalho incansável e produtivo feito nesta área, será que precisamos mesmo de uma personagem de ficção para dar a cara na luta pela igualdade de género? Acho que não.

Mudança: ação conjunta vs apatia geral

A mensagem que se passou com tal escolha foi controversa e, diria eu, com um lado muito negativo quando a intenção era o empoderamento de mulheres e, principalmente, de meninas e adolescentes. O que se pretende dos homens e das mulheres do futuro é que sejam cada vez mais independentes, capacitados e confiantes, conscientes dos seus direitos, livres nas suas escolhas e que tenham acesso a iguais oportunidades e dignidade nas suas vidas, sem que a aparência ou o género entrem nesta equação, convém não esquecer. É, contudo, revelador que esta escolha da ONU caia após quase 45 mil pessoas terem manifestado o seu desagrado numa petição pública, em vez de cruzarem os braços. Um pequeno exemplo, é certo, mas deveras demonstrativo de como a ação conjunta consegue ser bastante mais produtiva do que a apatia geral.

Na mesma semana em que cai a ‘Mulher-Maravilha’, é nomeada para Embaixadora da Boa Vontade da UNICEF a indiana Priyanka Chopra. Para lá dos filmes de Bollywood ou da personagem recente que interpreta na série “Quantico”, a atriz, modelo, escritora e ativista tem sido um rosto importante na luta contra a pobreza e a discriminação racial e de género.

Dar maior e melhor acesso à educação, principalmente de meninas - regra geral deixadas para segundo plano nas prioridades familiares do seu país -, é um dos pilares da fundação que criou com o seu nome, um projeto que neste momento leva à escola e proporciona cuidados médicos a mais de 120 crianças. Condições básicas que considerou fulcrais no seu desenvolvimento pessoal e independecia no presente, e às quais teve acesso por causa das condições económicas privilegiadas da família onde nasceu. Hoje, admitindo que “mesmo que quisesse não podia mudar o mundo”, doa 10% de todos os seus lucros profissionais às crianças ajudadas pela sua fundação, além de usar o seu mediatismo para dar a cara e tentar agitar consciências em causas humanitárias.

Não é realmente isso que vai mudar o mundo, mas que é uma ajuda à mudança, isso é inegável. Se toda a gente desse uma pequena contribuição – e não me refiro exclusivamente ao lado económico, há tantas outras formas, começando pelas atitudes quotidianas com o próximo, por exemplo – a mudança aconteceria mais rápido e de forma menos dolorosa para tanta gente mundo fora. Com todos os erros a que o ser humano está sujeito no seu percurso individual, Priyanka Chopra é um belo exemplo de como, feitas de carne e osso, há muitas mulheres, pessoas, que entendem esta necessidade e a põem em prática. E que podem tão bem representar a mensagem de igualdade e empoderamento que a ONU pretende passar.