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Madonna: um discurso, uma bofetada de luva branca

reuters

Não é a primeira vez que Madonna fala do episódio de abuso sexual que marcou o início da sua vida adulta. Tal como não é a primeira vez que fala sobre as regras do jogo do mundo do espetáculo ou do bullying, misoginia e sexismo de que foi alvo por parte de tantos homens e mulheres que se cruzaram no seu caminho. Contudo, não me lembro de alguma vez o ter feito de forma tão completa e incisiva, de uma vez só. A rainha da pop, ícone incontornável da libertação feminina e de maior abertura e aceitação do universo LGBT, não é arrojada apenas na música que faz. Também o tem sido na forma como conta o seu percurso e deixa claro, sem papas na língua, o quanto penou – e porquê - para conquistar o seu lugar ao sol. Até aos dias de hoje.

Amada por muitos, odiada por outros tantos, continua a ser um símbolo daquilo que para muitos é a ousadia, o descaramento, o despudor ou a provocação. Para mim, Madonna será sempre um marco da procura e conquista de maior liberdade individual. Dúvidas houvesse sobre esta sua capacidade inigualável de agitar as águas e conseguir pôr uma boa parte do mundo a questionar o “supostamente correto”, basta ouvirmos o seu mais recente discurso público para as dissiparmos.

Eleita Mulher do Ano numa cerimónia da Billboard, Madonna, hoje com 58 anos de vida e mais 30 de carreira, usou este momento de ovação para apontar o dedo, metê-lo diretamente na ferida, remexê-la e lamber o sangue no final. Com toda a elegância, ironia e assertividade que lhe são caraterísticas. Partilho convosco um vídeo com parte deste discurso que se tornou viral nos últimos dias, seguido de dez frases chave da mensagem que a rainha da pop quis passar. Trinta e quatro anos depois, tanta coisa continua a ser igual.

1 – Bofetada de luva branca

“Estou aqui diante de vós como um capacho, quer dizer, como uma artista feminina. Obrigada por reconhecerem a minha capacidade de continuar uma carreira de 34 anos diante de sexismo e misoginia explícitos, bullying constante e abuso implacável”

2 – A violência sexual

“Estávamos em 1979 e Nova Iorque era um lugar muito assustador. No meu primeiro ano [na cidade] fiquei sob a mira de uma arma de fogo e fui violada num terraço com uma faca encostada à garganta”

3 – As regras do jogo

“O minha verdadeira inspiração era o David Bowie. Ele personificava o espírito masculino e o feminino e isso agradava-me muito. Ele fez-me acreditar que não havia regras, mas eu estava errada. Não há regras… se formos um rapaz. Se formos uma rapariga, temos de jogar o jogo”

4 – Beleza vs inteligência

“É-vos permitido serem engraçadas, queridas e sexy, mas não podem ser demasiado espertas. Não tenham uma opinião. Ou, então, não tenham uma opinião que não esteja alinhada com o status quo”

5 – Castração pessoal e prazo de validade

“Tu podes ser objetificada pelos homens e até te podes vestir como uma puta, mas nunca assumas e te orgulhes da puta que há ti. Por fim, não envelheças, porque envelhecer é um pecado. Vais ser criticada, vilipendiada e as tuas músicas não vão passar mais na rádio”

6 – Homens e mulheres, duas liberdades diferentes

“Durante algum um tempo não fui considerada uma ameaça. Anos depois, já divorciada e solteira, lancei o meu álbum ‘Erotica’ e o meu livro ‘Sex’. Lembro-me então de fazer manchete de tudo o que eram jornais e revistas. Tudo o que lia sobre mim era mau, chamavam-me de puta e de bruxa. Algumas dessas manchetes comparavam-me inclusive ao diabo. Então, disse a mim mesma: ‘Espera aí, o Prince não anda por aí de leggings, saltos altos, com batom e a mostrar o rabo?’ Sim, ele fazia tudo isto, mas ele era um homem. Essa foi a primeira vez que eu realmente percebi que mulheres não têm a mesma liberdade dos homens”

7 – Ousadia e vulnerabilidade

“Como podem imaginar, todos estes acontecimentos inesperados não só me ajudaram a tornar-me na mulher ousada que hoje está aqui à vossa frente, mas também recordaram-me que sou vulnerável. Na vida, não há verdadeira segurança a não ser acreditarmos em nós próprios”

8 – O feminismo sexista

“Lembro-me de desejar ter uma mulher que me apoiasse. Camille Paglia, a famosa escritora feminista, disse que eu fiz as mulheres retrocederem ao me objetificar sexualmente. Isso fez-me pensar: ‘Se és feminista, então não tens sexualidade. E disse a mim mesma: ‘Foda-se. Eu sou um tipo diferente de feminista’”

9 – Opressão como modo de vida

“As mulheres são oprimidas há tanto tempo que elas próprias já acreditam no que os homens dizem sobre elas. Acreditam piamente que a sua função é apoiar um homem. E há alguns homens bons e dignos de serem apoiados, mas não por serem homens, mas porque valem a pena. Como mulheres, nós temos que começar a apreciar o nosso próprio mérito também”

10 – O que não mata (às vezes) torna-nos mais fortes

“Estou aqui porque quero agradecer mais do que para receber este prémio. Agradecer não apenas a todas as mulheres que me amaram e me apoiaram ao longo do caminho, mas também aos que duvidaram e me disseram que eu não poderia, que eu não iria e que eu não deveria. A vossa resistência fez-me mais forte, fez-me a lutadora que sou hoje”