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Expresso

Um serviço de táxi só para mulheres? Que grande erro! 

Durante a minha recente pausa cruzei-me com uma notícia que me deu que pensar: acaba de ser lançada em São Paulo uma aplicação de serviços de táxi exclusivo para mulheres, desde a frota de motoristas às clientes. A app – que se chama FemiTaxi - pretende muito em breve expandir-se para outros pontos do país, como Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Porquê? Porque as denúncias feitas por mulheres, de casos de assédio e violência neste meio de transporte, são mais que muitas. Mas será que fazer um serviço só de mulheres e para mulheres é a solução?

Em recentes declarações ao Estadão, o criador e CEO da FemiTaxi, Charles-Henry Calfat Salem, explicou que teve a ideia depois de ouvir queixas recorrentes das mulheres que o rodeiam, que se sentiam frequentemente amedrontadas com comportamento inadequados de motoristas de táxis. Quando lhes perguntava se gostavam de ter a hipótese de serem conduzidas por mulheres, a resposta era quase sempre a mesma, um redondo sim. Posto isto, dois anos depois nasce esta aplicação, com duas palavras chave enquanto diretrizes do serviço: segurança e conforto. A frota é conduzida por mulheres, que têm formação específica e são avaliadas pelas clientes a cada serviço que fazer, tal como noutras aplicações do género. As clientes, essas têm de ser mulheres, mas podem vir acompanhadas por homens. “Eu comparo esta app com o carro blindado: não seria melhor acabar com a violência em vez de blindar o carro? É o mesmo pensamento”, explica o criador da FemiTaxi. “O assédio é uma coisa que, infelizmente, sempre vai existir, mas com o tempo, com o combate de alguns grupos de mulheres e de alguns homens, essas desigualdades vão ser reduzidas. Mas está a demorar muito tempo. Uma aplicação como a minha é a solução de um problema.”

Percebo as declarações deste senhor, tal como percebo as múltiplas queixas de mulheres que se sentem altamente desconfortáveis ao andarem sozinhas num táxi conduzido por um homem. Principalmente à noite, também eu já recorri ao eterno truque de telefonar ao namorado durante a viagem, tal como tantas vezes o fiz com a minha mãe durante os verdes anos da adolescência e entrada na fase adulta. Por cá, não sei se também já acontece, mas no Brasil são muitas as mulheres que têm grupos virtuais para onde enviam fotos com dados do carro quando usam um táxi “fora de horas” (infelizmente ainda se usa esta expressão) ou em localizações mais perigosas. Não quero com isto dizer que todos os motoristas são potenciais agressores, entendam. Mas os casos de assédio, perguntas indiscretas, olhares desagradáveis durante o trajetos ou desvios indevidos por caminhos fora da rota continuam a acontecer. Podíamos fingir que isto não incomoda? Podíamos, pois. Mas também podíamos simplesmente viver numa sociedade onde este tipo de receios e constrangimentos, carregados de falta de respeito, não fossem tão recorrentes.

Usar um penso rápido ou tratar a infeção?

Não consigo concordar, portanto, com a criação de aplicações do género. Percebo que exista necessidade de maior segurança e conforto, mas não acredito de todo que a segregação – sim, é disto que no fundo estamos a falar – seja a resposta. Continuamos a usar pensos rápidos para esconder as feridas em vez de tratarmos a fundo das infecções que estão por trás. Neste caso concreto, continuamos a fomentar que seja a mulher a ter de alterar os seus hábitos em sociedade – como atos tão simples como apanhar um táxi – para se defender de uma agressão que só acontece porque nasceu com determinado género, género esse que a torna mais permeável a contínuas agressões, assédio e falta de respeito. Talvez fosse mais produtivo, por exemplo, que a avaliação a que estas motoristas da FemiTáxi são sujeitas fosse alargada aos restantes serviços habituais de transporte de passageiros. Ou que formação prévia fosse prestada aos motoristas quanto às questões éticas e que sanções duras fossem aplicadas em casos abusivos do género. Claro que a curto prazo isto não acontece por artes mágicas, mas, se queremos mudança, é preciso começarmos a corrigir quem está a fazer o comportamento errado e não o contrário.

Já por aqui tinha tentado deixar esta mensagem, aquando da proposta de comboios com carruagens só para mulheres na Alemanha e no Reino Unido: a segregação de género como meio de prevenção é simplesmente voltar atrás no tempo. Além de dar um eterno cariz de impunidade a quem perpetua os comportamentos atrás descritos, é colocar-nos a todos no patamar de termos de viver com isso como uma constatação. O que é ofensivo tanto para homens, como para mulheres. Por um lado, põe todo o motorista do sexo masculino no papel de potencial agressor, por outro, põe a mulher no papel da pessoa que tem de se sentir responsabilizada pela sua própria integridade física e moral quando faz algo tão simples quanto apanhar um transporte público. Não é certamente dividindo mulheres e homens ou evitando contacto entre os géneros que vamos evoluir enquanto sociedade, bem pelo contrário. Estamos só a continuar a validar um comportamento nefasto para todos nós, que carece de mudança urgente. E essa mudança começa com as mentalidades.