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Expresso

Mal nascem já sabem o seu destino: “Vais ser prostituta” 

Há histórias que nos arrepiam por dentro e a da comunidade semi-nómada ‘perna’ é uma delas. Eternamente marginalizados social e economicamente, quem nasce nesta casta indiana tem uma caminho de pobreza e discriminação vaticinado desde o momento em que nasce. Mas no caso das mulheres, a ‘sentença’ comum vai mais longe: depois de casarem e terem o primeiro filho, o seu dever é começarem-se a prostituir para garantir a subsistência da família. Uma pressão exercida pelos próprios pais e sogros. E os maridos? A eles cabe-lhes, no máximo, serem os chulos das suas mulheres. E castigá-las quando o retorno económico não chega para alimentar toda aquela gente.

Li sobre isto pela primeira vez ontem, quando passava os olhos na Al-Jazeera. E mesmo sabendo que a exploração sexual de meninas e mulheres mundo fora é algo que consegue ultrapassar todos os limites do respeito pelos direitos humanos mais básicos, confesso que fiquei estupefacta. Num país onde tantas mulheres continuam a ser assassinadas em ‘crimes de honra’ por suspeita de relações ilícitas, motivadas por ações tão simples quanto dirigirem a palavra a um homem na rua, esta “tradição” (como muitos lhe chamam para evitar falar no crime de extorsão implícito) tem tanto de irónica quanto de grotesca.

Muita gente poderá até perguntar-se porque é que as mulheres se sujeitam a tal situação. Mas a resposta, essa deixo-a para as palavras ditas por Leela na reportagem da Al-Jazeera: “Não há outro caminho. Quando a minha filha disse aos sogros dela que não se queria prostituir, eles ameaçaram-na. Disseram-lhe que lhe tiravam tudo, até a roupa. Que a iam deixar sozinha na rua, toda nua”. No seu próprio passado, o cenário de agressão física e ameaças de atos macabros em caso de recusa à atividade foram uma constante. Não teve por onde fugir e, durante mais de uma década, acabou por vender o corpo na rua, acompanhada por inúmeras outras mulheres Perna que o faziam em grupo para se ajudarem a proteger umas às outras.

Por “tradição” os seus maridos não trabalham

Começam na adolescência, depois de infâncias sem acesso à escola, com casamentos forçados em troca de um parco dote e de uma primeira gravidez vivida em condições miseráveis. Depois disso, são literalmente atiradas para as ruas pelos maridos, onde se prostituem por cerca de €2,50. É apenas esse o “valor” dado ao seu corpo, à sua alma e à sua dignidade. Os maridos e os sogros vivem desse rendimento e, também por “tradição”, só elas são obrigadas a trabalhar.

Toda esta injustiça e desrespeito pela sua vontade e dignidade fizeram com que a filha de Leela fugisse da família do marido, ato muito pouco comum dentro da comunidade. Primeiro foi para casa da mãe, hoje com trinta a poucos anos. Depois, quando percebeu que também a sua própria família não lhe daria o apoio necessário, acabou por se refugiar num abrigo de uma ONG que trabalha com mulheres na mesma situação. Nas costas carrega a raiva, mas também a eterna vergonha que todos os que a deviam proteger a fazer sentir por fugir à tarefa que lhe foi atribuída mal nasceu, mulher. Hoje, alguns meses depois da fuga, a própria Leela admite que toda a família espera que seja aquela adolescente a quebrar o ciclo das meninas do seu clã. O acesso à educação, como porta para um futuro melhor, mais digno e independente economicamente, parece ser a solução.

Toda a história pode ser lida nesta reportagem da Al-Jazeera, que aprofunda o tema com a mestria do costume. E que nos deixa perceber que a “sentença” de vida das mulheres ‘perna’ é só um ponto de partida para a realidade atroz de tantas outras mulheres de castas mais baixas naquele país. De uma forma ou de outra, a violência sexual é recorrente e desvalorizada. Tal como em tantas outras partes do mundo: globalmente, diz as Nações Unidas, 120 milhões de meninas e adolescentes já foram forçadas a ter relações sexuais contra a sua vontade. Mais de 70% das vítimas de tráfico humano são do sexo feminino, sendo que 80% das mulheres e meninas traficadas entram em redes de exploração sexual.