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Expresso

Não, a minha barriga não é repugnante 

Há umas semanas estive à conversa com a equipa da Associação Mulheres sem Fronteiras, que tem um trabalho incrível e bastante ativo na promoção da igualdade de género, inclusive junto dos adolescentes. Uma das coisas que me ficou na memória entre os vários temas que debatemos foi o facto de o “body shaming” ser uma das suas atuais principais preocupações. A forma negativa e distorcida como, principalmente as miúdas, olham para os seus corpos, com base em expectativas totalmente irreais é algo que não deve ser menosprezado. Sob o risco de virmos a ter uma futura população adulta com propensão a distúrbios alimentares e problemas graves de auto-estima e confiança, fatores que influenciam tudo o resto.

Claro que isto do ‘body shaming’ não é novidade: lembro-me-me de ser miúda e da praticamente já todas usarmos camisolas enroladas à cintura, não porque tivéssemos medo de vir a ter frio, mas porque era essencial esconder o rabo. Também me lembro de como nos sentávamos quase sempre com os braços à frente da barriga, não fosse algum refego ficar mais visível, e de como a altura de ir para a praia, e potencialmente ter de usar um biquíni, era uma prova de fogo.

Hoje, olho para tantas mulheres da minha idade e o desconforto é igualmente visível, embora se manifeste de formas diferentes: são imensas as que vivem obcecadas com as dietas loucas, com os suplementos alimentares que sabe-se lá de onde vêm, com os sumos verdes, com as bagas e as sementes enquanto panaceia do corpo ideal, com a angústia de não serem suficientemente bonitas aos olhos dos outros. Mulheres inteligentes, cultas e independentes, mas que, por exemplo, não ousam usar uma saia curta porque têm receio do tamanho das suas pernas (cuja auto-percepção é tantas vezes distorcida), que ainda andam às avessas com o drama do biquíni no verão por causa da celulite, de alguma flacidez na barriga e de marcas de gravidez, ou que põem em causa usar umas simples calças de ganga mais justas porque as ancas estão grandes demais. Mas, afinal, o que é isto de ser grande demais? Quem ditou esse tamanho perfeito e com base em quê? E o que é que nos obriga a sermos escravas dessa expectativa alheia? Porque é que a diversidade dos corpos é, não só, difícil de aceitar, como parece quase uma afronta na nossa sociedade?

O que as adolescentes de hoje enfrentam é muito mais grave

Esta geração de mulheres que vive hoje tão mal com a sua auto-imagem cresceu com pouco mais do que dois canais de televisão que passavam telediscos das poucas girls band da altura e com revistas do estilo das velhinhas Super Pop e Bravo, que nos faziam idolatrar corpos de atrizes como a Pamela Anderson (quem não se recorda dos posters da série “Baywatch”) ou de modelos como a Kate Moss. E o resultado, quer queiramos aceitar, quer não, está à vista, por mais que não se fale abertamente sobre ele. Mas quando pensamos nas miúdas de hoje, o cenário é tão, mas tão mais perigoso e veloz: todos os dias, 24 horas por dia, as adolescentes são bombardeadas por imagens de mulheres supostamente perfeitas através das mais diversas plataformas. Plataformas que também proporcionam ‘soluções rápidas’, embora nefastas para a saúde, e um bullying cada vez mais bizarro, como o que é feito com recurso a partilha de vídeos e fotografias humilhantes e degradantes.

Esta realidade merece a nossa atenção e intervenção. Enquanto educadores, o nosso dever é obviamente esclarecer, partilhar e empoderar. Mas nunca esquecendo que dar o exemplo é igualmente essencial. E é aqui que muitas vezes nos deparamos com o tal problema: também nós, mulheres adultas - mães, tias, professoras - na nossa larga maioria continuamos a não nos sentirmos confortáveis com os nossos corpos. Não é portanto de estranhar que a campanha da Movemeant Foundation que voltou esta semana a correr as redes sociais seja dedicada tanto a mulheres como a adolescentes, como forma de combate à verdadeira “pandemia” das últimas duas décadas: a da escravatura do corpo e da imagem corporal perfeita.

Sendo que isto da perfeição não existe, esta fundação – que se dedica ativamente a promover a importância da diversidade, principalmente em escolas secundárias - incentiva todas as mulheres adultas e adolescentes a darem um passo tão simples, mas tão simbólico, quanto fazerem exercício físico sem terem vergonha de mostrar a barriga. Sim, sem a eterna camisola largueirona que esconde a barriga, seja ela mais rechonchuda ou mais lisa, com estrias ou refegos de lado. Nas redes sociais, esse movimento aliou-se à divertida hashtag #jellybelly.

Esta iniciativa pode parecer demasiado simples ou até mesmo vazia de conteúdo, mas não é bem assim. Primeiro, o vídeo da campanha começa por mostrar como praticamente todas as mulheres têm alguma gordura localizada na barriga, mesmo atletas de alta competição. Acreditem: há muitas mulheres que ainda carregam isto da gordura localizada com uma dose de culpa anormalmente grande, com se tivessem falhado num ponto sério das suas vidas. Depois, vem a questão da aceitação do próprio corpo e também dos corpos do outros, quebrando os nossos próprios preconceitos. Por fim, aprendermos a quebrar o receio do julgamento alheio, tão bem retratado nos comentários deixados ao vídeo, com frases como “que nojo” ou “é repugnante”. Comentários feitos como sentença grosseira e imediata a umas simples imagens das mais variadas mulheres a exercitarem-se de barriga à mostra no ginásio. Valerá mesmo a pena levar em conta este tipo de ofensas gratuitas, feitas maioritariamente por gente frustrada? Repugnante é, sim, a pequenez de espírito e pensamento.

Assumirmos os nossos corpos, e conseguirmos apreciá-los ao ponto de quebrarmos barreiras tão simples quanto a do “o que é que eles vão achar” pode ser uma forma de empoderamento muito forte. Com esta campanha, pretende-se deixar claro que não é uma flacidez ou um tamanho, seja ele maior ou menor do que a tal “norma”, que dita o que alguém pode ou não fazer ou mostrar. “Esta revolução começa por nos sentirmos bem com na nossa própria pele”, diz a campanha. E quando isso acontecer, talvez os outros comecem, pouco a pouco, também a mudar a forma como nos veem e julgam. Se conseguirmos passar esta mensagem às nossas meninas, futuras mulheres, só temos todos a ganhar.