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Expresso

A vida de saltos altos

Não escondam as nódoas negras com maquilhagem, denunciem-nas

A data escolhida para a emissão do programa de televisão que durante o fim de semana deu que falar não podia ter sido mais irónica: na mesma semana em que um pouco por todo o mundo se faziam marchas e manifestações aliadas à mensagem urgente do Dia Internacional de Eliminação da Violência contra as Mulheres, em Marrocos passava um programa matinal onde se ensinava qual o “o tipo de maquilhagem a utilizar quando uma mulher é vítima de violência física”.

Basicamente, o momento televisivo tentava "fornecer soluções às mulheres que têm necessidade destes conselhos, para que possam continuar a sua vida e ir trabalhar" depois de uma agressão dentro das quatro paredes da sua casa. Inacreditável, diriam muito de vós, mas é esta a realidade. E não basta pensar que isto só acontece porque é Marrocos, acreditem que por cá são mesmo muitas as pessoas – neste caso as mulheres – que continuam a ouvir conselhos do género. Entretanto, o canal 2M até já veio pedir desculpas publicamente pelo conteúdo “inapropriado” daquela transmissão, mas é importante pararmos para pensar um bocadinho em porque é que tal conteúdo é emitido sem que ninguém pense previamente que é, não só ultrajante, como também um ataque aos direitos humanos mais básicos.

Não podemos continuar a normalizar a violência

Numa primeira análise, diria que grande parte da culpa recai sobre a eterna normalização da violência doméstica. Se quisermos ir mais longe, também podemos tentar pensar um pouco em porque é que esta normalização ainda acontece e isso levar-nos-ia de imediato à forma como as mulheres ainda são vistas na sociedade e qual o seu papel face ao homem, porque, quer queiramos, quer não, a expectativa de submissão e de tolerância face ao ‘género dominante’ ainda recai sobre o sexo feminino. Mas debrucemo-nos simplesmente na normalização da violência dentro das relações familiares e de intimidade: continuamos a querer vê-la como um mal menor, que parece só se tornar realmente digno de preocupação quando a vítima aparece morta ou com um espancamento tal que precisa de cuidados médicos.

Como algo que se calhar até nem é assim tão grave, que não merece preocupação porque todos os casais têm discussões– ainda em lembro de uma amiga que há uns anos foi à polícia porque tinha sido agredida pelo marido e a resposta foi “se isso nunca aconteceu antes, volte para casa que isso foi só um arrufo”. Uma opinião que tantas vezes é corroborada por aquele típico arrependimento imediato do agressor, com promessas de nunca mais voltar a acontecer. Mas, regra geral, acontece. A cada nova vez o grau de violência tende a aumentar e não é certamente uma maquilhagem que vai fazer com que a vida de qualquer vítima possa seguir em frente no dia seguinte. A denúncia, essa certamente sim. Devia ser esse o conselho imediato de todos nós.

Costuma-se dizer que “entre marido e mulher não se mete a colher”, ditado que basicamente nos inibe de qualquer papel ativo de intervenção em atos do género, quando estes acontecem dentro do domínio privado. Mas quando a vítima não consegue fazê-lo sozinha, há que meter a colher. Cada vez mais todos devíamos ter consciência disso. Contudo, é realmente mais fácil mascarar uma situação com rouge e pó de arroz, como este programa inconcebível tentou mostrar numa edição matinal cuja audiência maior são precisamente mulheres. É tão mais fácil pedir a uma vítima que continue a viver na sombra do medo, da vergonha e da pressão social e familiar para não desmembrar uma família (principalmente quando há filhos) com algo tão corriqueiro – diriam muitos - quanto um murro da cara ou um empurrão contra a parede durante o calor de uma discussão.

É igualmente tão mais fácil dizer a uma mulher violentada que “os homens são mesmo assim”, que “ele faz isso porque está cansado” ou até mesmo o eterno cliché “ele faz isso mas é porque gosta de ti” quando o motivo da agressão é, por exemplo, ciúmes. Tanta gente passa pelo mesmo que é realmente fácil normalizar a situação. Mas cabe-nos a todos nós contrariar tal ideia e ter bem noção disto: bater, humilhar, oprimir e coagir não são desmonstrações de um afeto maior, primário. São simplesmente formas de violência e de desrespeito, e não há nada que o desculpe.

Não maquilhem as nódoas negra, não calem as vossas dores, não tenham vergonha, não se escondam: denunciem. Mesmo que seja preciso fazê-lo uma e outra vez.