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Expresso

Dez números que não nos deviam deixar indiferentes

Hoje assinala-se o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. Sei que ontem já por aqui falei neste tema, mas parece-me que a gravidade do mesmo torna pertinente que hoje possa voltar a abordar o assunto. Nas últimas 48h chegaram aos jornais nacionais inúmeros dados oficiais sobre a realidade de violência de género no velho continente, vindos de organismos como o Ministério Público, a Comissão Europeia e diversas organizações não-governamentais dedicadas aos direitos humanos e, particularmente, os das mulheres. Alguns são totalmente novos, outros já eram conhecidos (pelo menos por quem os procura e quer olhar para eles).

Em suma, são números negros, bem maiores do que gostaríamos de acreditar que é possível. Mas olhar para eles é essencial, porque por trás destes números estão pessoas. Pessoas cujas vidas ficam tantas vezes irremediavelmente desfeitas. Para facilitar o exercício de reflexão sobre um tema que não nos pode ser indiferente, selecionei em baixo dez números (ou melhor, informações) que ajudam a traçar apenas a ponta do icebergue daquilo que é o cenário geral desta realidade, tanto em Portugal, como no resto da Europa.

- A nível europeu, 12% dos inquiridos consideraram “justificável o sexo sem consentimento” quando vítima está bêbeda ou drogada; 11% quando esta aceita voluntariamente ir para casa do agressor; 10% quando veste algo revelador, provocador ou sexy;

- 29% dos portugueses considera justificável forçar alguém a ter relações sexuais contra a sua vontade.

- Uma em cada três mulheres a residir na União Europeia já passou por uma situação de violência física ou sexual desde os 15 anos.

- 22% dos europeus acredita que por vezes as mulheres alteram ou exageram nas denúncias de abusos ou violação, enquanto 17% concordam que os atos de violência são frequentemente provocados pela vítima.

- Entre 2013 e 2015, foi recebida na APAV uma média de 49 queixas de violência doméstica por dia, a maioria feita por mulheres jovens envolvidas em relações muito violentas.

- Nesse mesmo período, do total das vítimas apoiadas pela APAV, 19.132 (85,46%) eram mulheres e 3141 (14,03%) homens.

- Com idades compreendidas entre os 36 e os 45 anos, estas mulheres vítimas de violência doméstica eram sobretudo casadas e pertenciam a um tipo de família nuclear com filhos.

- Nos últimos 12 anos, mais de 450 mulheres foram assassinadas em Portugal e 526 foram vítimas de tentativas de homicídio, na maioria dos casos por parte de homens com quem tinham relações de intimidade.

- A violência doméstica é um crime público e só no ano passado foram registadas 26.595 denúncias em Portugal.

- Desde o dia 1 de janeiro de 2016, a PSP e a GNR efetuaram cerca de 50 mil avaliações e reavaliações de risco de vítimas de violência doméstica em Portugal.

E porque é impossível falar do nosso continente sem pensarmos no resto do planeta, deixo-vos outro número que deveria deixar-nos, pelo menos, a pensar: em todo o mundo, 35% das mulheres são alvo de violência em algum momento das suas vidas, a maioria no contexto das suas relações de intimidade.

Se calhar, faz mesmo sentido indignarmo-nos, erguermos as vozes e marcharmos contra a violência e a misoginia. Por todos nós.

  • Assinala-se esta sexta-feira o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres. Só este ano, 22 mulheres perderam a vida às mãos de pessoas que lhes eram próximas. O Governo estuda impacto das políticas públicas de combate à violência doméstica nos últimos 15 anos. Ao fim do dia, há uma marcha na Praça do Comércio, em Lisboa