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Expresso

Contra a misoginia e a violência, marchar, marchar! 

ONG denuncia: na Argentina, uma mulher é assassinada a cada trinta horas. Homem viola mulher durante o trabalho de parto. Professor apanhado a tentar vender menina de 12 anos a rede de tráfico humano. Homem mata mulher para ficar com a fortuna da família. Mulheres muçulmanas são alvo preferencial de ódio contra migrantes. Vídeo de mulher a ser espancada por três homens torna-se viral. Mulher morta pelo marido com um tiro na cabeça. Homem de 67 preso por manter 5 mulheres em cativeiro. Duas mulheres condenadas a vinte chicotadas por usarem linguagem imprópria no Whatsapp. Menina de quatro anos abusada sexualmente por homem de 58. Uma pesquisa rápida nas notícias que correram o mundo nos últimos três dias revela histórias como estas que acabo de escrever em cima. Não as reproduzo aqui para vos fazer sentir mal, nem muito menos por bizarria. Escrevo-as porque não nos devemos esquecer que situações como estas continuam a acontecer diariamente à volta do globo, tanto em países subdesenvolvidos como também no nosso primeiro mundo. Portugal incluído.

Amanhã assinala-se o Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres e, dúvidas houvesse sobre a sua importância, acredito que as frases de jornal reproduzidas em cima podem ajudar-nos a perceber que ele faz todo o sentido. A violência e repulsa específica contra as meninas e mulheres é uma realidade, dura, inaceitável, persistente. E cabe-nos a nós não meter a cabeça debaixo da areia tipo avestruz. É preciso assumir que temos um problema global entre mãos, problema esse que não vê resolução rápida à vista por mais que já se tenham dado grandes passos no bom caminho. A mulher continua a ser tida, demasiadas vezes, como um elo mais fraco que pode ser subjugado e violentado. Não o digo com prazer, nem muito menos querendo generalizar ou envergonhar os homens como um todo, entendam: mas essa violência continua a ser maioritariamente perpetuada pelo sexo masculino.

Tal como já uma vez escrevi por aqui, falar sobre isto abertamente não é tentar tornar a imagem do ‘homem’ num bicho papão ou num animal grotesco que não sabe controlar impulsos ou que não consegue perceber o significado das palavras respeito e igualdade. Há muitas mulheres que também não as percebem, nem as praticam. É, sim, agitar consciências para a necessidade de mudança. Para o caminho que temos de fazer em conjunto (!) para chegarmos a um mundo menos impar. Educar as novas gerações num sentido diferente – que não é o da violência inversa, mas sim o da igualdade e do respeito mútuo – parece-me essencial.

Violência em Portugal: maioria das vítimas são mulheres jovens

Ainda hoje a agência Lusa divulgou logo pela manhã os mais recentes dados da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima: entre 2013 e 2015, foi recebida uma média de 49 queixas de violência doméstica por dia, a maioria feita por mulheres jovens envolvidas em relações muito violentas. Do total das vítimas apoiadas, 19.132 (85,46%) eram mulheres e 3141 (14,03%) homens, adiantam os dados, precisando que, em 2013, foram ajudadas 7271 vítimas, em 2014, 7238, e em 2015, 7878. A maior parte das mulheres que pediu ajuda tinha entre 26 e 55 anos (39%), um perfil que se alterou nos últimos 20 anos. Relativamente ao perfil do agressor, também é um homem mais jovem, entre os 26 e os 55 anos, empregado, em que as questões do álcool ou qualquer outro tipo de adição não se colocam como factor associado à violência. Na maioria do casos, o cônjuge é o agressor. E estes são apenas os casos que chegam à APAV, a realidade deverá ser maior.

Dentro deste cenário negro de violência, a boa notícia, parece-me, é que as vítimas já não esperam uma vida inteira até conseguirem pedir ajuda. Se antes se esperava que os filhos saíssem de casa, hoje as mulheres mais jovens parecem ter mais consciência sobre quão errado e intolerável é tal comportamento abusivo. E menos medo de dar o passo de pedir ajuda. A informação é maior, os apoios também estão certamente melhores e mais eficazes, e a pressão social e familiar para o silêncio, embora tremendamente complexa, parece começar a esbater-se. Mas os números continuam altos, demasiado altos.

Contudo é também importante irmos percebendo que a violência não se resume à agressão física e ao abuso sexual. Privar uma pessoa da sua liberdade, dignidade e integridade individual é igualmente uma violência. Insultar é violência. Coagir e ameaçar é violência. Desrespeitar é violência. Negar a alguém o acesso à educação ou ao mercado laboral, obrigar alguém a um laço matrimonial, vender alguém como uma mercadoria, são todas elas também formas de tremenda violência. E milhões de meninas e mulheres estão sujeitas a situações destas todos os dias, um pouco por todo o mundo.

Não é só por nós, mas também por todas essas pessoas diariamente violentadas, que amanhã se vai marchar em Lisboa. Uma Marcha pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, convocada por diversas organizações, (18h, na Praça do Comércio, em Lisboa) e na qual vos convido e desafio a participar. Porque este não é apenas um problema das mulheres, é um problema de todos nós.

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