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Expresso

Esta boneca mudou a vida de dezenas de mulheres numa ilha remota 

Ilha de Ataúro. Habitada por cerca de dez mil pessoas, que vivem com escasso acesso a coisas tão básicas quanto água, eletricidade ou ensino, faz parte de Timor-Leste. Esse país que fica a quase 9 mil milhas de distância de Portugal, mas com tantas histórias e emoções que ainda nos ligam. É precisamente desse lado do planeta que, através de um amigo trota mundos, me chegou uma história impressionante de empoderamento feminino. E, precisamente, contada em português, por Madalena Barreto, uma historiadora e antropóloga que tem dedicado o último ano da sua vida ao desenvolvimento da boneca – sim, uma boneca – que já mudou a vida de mais de 60 famílias de Ataúro. Mas que está em risco de desaparecer.

Vamos, então, por partes nesta história: Timor- Leste é um país ainda recentemente aberto ao mundo, mundo esse que para a isolada - e deslumbrante - Ilha de Ataúro é mesmo uma miragem. Embora exista um lema apregoado ao quatro ventos inspirado na frase “Fetu Forte, Nasaun Forte” (“Mulher Forte, Nação Forte”) o sistema patriarcal é uma realidade demasiado presente. “Em teoria a frase é bonita, mas são poucos os homens que aceitam acordar e não ter o pequeno-almoço pronto, o almoço e o jantar à sua espera quando chegam a casa, a roupa lavada e os filhos tratados. Em algumas partes do país, tudo isso é exigido mesmo que marido e mulher tenham o mesmo horário de trabalho ou mesmo depois da mulher ter passado horas na horta ou de ter andado quilómetros para ir buscar lenha e água, enquanto o marido se passeou o dia com o galo das apostas debaixo do braço”, conta Madalena. Um dos maiores problemas é a dependência financeira das mulheres aos maridos (que ao oferecerem búfalos aos pais da mesma aquando do noivado acreditam que, se pagaram por ela, ela tem de fazer tudo o que ele quiser), os inerentes elevados índices de violência doméstica e a falta de oportunidades de empregos para ambos. Mas em Ataúro, algo mudou e o empoderamento feminino foi a chave dessa mudança.

E assim nasceu a Boneca de Ataúro

Tudo começou em 2006, quando a suíça Ester Piera ali chegou a pedido do padre Luís, um italiano que desejava dinamizar a economia da ilha. O seu enfoque? As mulheres, mais fiáveis e organizados no que tocava dinheiro. Em modo pro bono, a artista e designer foi tentar descobrir que saberes e tradições mais motivavam as senhoras da ilha, e a costura pareceu-lhe a solução mais acertada. Decidiu então desenhar bonecas que as mulheres pudessem costurar e vender aos turistas e expatriados que por ali passavam, rendendo-lhes algum lucro mensal. Começaram por ser apenas quatro mulheres, numa pequena sala sem grandes condições, mas a adesão de costureiras e clientes não tardou. Com o apoio da Fundação Oriente e do Instituto Camões participaram numa exposição em Díli que lhes rendeu alguma notabilidade, o que resultou numa encomenda de 3200 bonecas por parte da UNICEF para distribuir pelas crianças de Timor. A partir desse momento, em 2008, a a Boneca de Ataúro nunca mais parou de mudar vidas.

Hoje são mais de 60 as mulheres que se dedicam à cooperativa. Além das bonecas e demais artigos costurados à mão (que já podem ser compradas online), têm também uma pequena guest-house e um restaurante, o único da ilha que serve comida italiana. Os lucros revertem a 100% para os ordenados das mulheres que trabalham na cooperativa. “É incrível constatar quão longe elas já chegaram no que toca à igualdade de género e ao trabalho de equipa enquanto casal. Aos poucos, e com muito esforço, estas mulheres conquistaram o apoio dos maridos, e batalharam por uma posição de maior poder de palavra na sua comunidade”, explicou-me Madalena num dos inúmeros emails que trocámos, entre contratempos como falha de internet e diferença horária. “Estas mulheres são o maior exemplo de humildade de sentido de comunidade que já tive. A sua capacidade de coordenação, cooperação, organização e resolução de problemas é inexplicável”. Quanto ao que, acima de tudo, as motiva:. “ Todas elas sabem precisamente onde querem investir o dinheiro que estão a ganhar, na escola dos filhos”. E a educação, como todos sabemos, é o caminho certo para a mudança a longo prazo.

Vamos deixar a boneca acabar?

Toda esta história é um exemplo incrível de como é possível mudar tradições e modos de vida. Mas a boneca corre o risco de acabar e é também por isso que escrevo este texto. Tanto o edifício onde está montada oficina onde as bonecas são costuradas, tal como as terras onde fica a guest-house e o restaurante, pertencem ao Estado e à Igreja. E embora muitas vezes tenham sido feitos acordos verbais de que não expulsariam o projeto de lá, tal vontade nunca foi formalizada. E neste momento esse risco é real. Desalojar a Boneca de Ataúro, seria tirar o emprego a mais de 60 mulheres que hoje são o principal meio de subsistências das suas respetivas famílias.

É aqui que Madalena, com sua boa vontade, sensatez e energia inesgotáveis, está a dar um enorme contributo. Deitou mãos à obra e o orçamento para a “independência da boneca” está feito: com cerca de 350 mil euros conseguem ser independentes, fazer mais e melhor. Primeiro que tudo, querem construir uma grande Casa da Boneca de Ataúro, com guest-house e restaurante, lado a lado com uma oficina onde estas 60 mulheres possam continuar a trabalhar dignamente e estender a oportunidade de emprego a mais mulheres. Além dos turistas, tencionam receber também residências artísticas que funcionem como partilha de conhecimentos entre as senhoras e os visitantes. Depois, pretendem expandir o negocio a Díli e abrir por lá uma loja com os seus produtos. Por fim, criar um programa educativo para que estas adolescentes e mulheres possam chegar mais longe e tornarem-se verdadeiramente independentes da presença de voluntários, desde aulas de inglês e português, a informática, e gestão. Basicamente, dar-lhes autonomia.

Que a Boneca de Ataúro é uma ideia que resulta, já não há dúvidas. Os últimos dez anos mostram quão importante foi para o desenvolvimento da ilha, que é hoje um exemplo citado em boa parte do país. Agora só falta conseguir tornar real este passo da autonomia. Posto isto, partilho convosco o link para a campanha de fundraising para o caso de quererem ajudar ou partilhar com alguém – desde privados a instituições - que o possa fazer. As bonecas são lindas, verdade seja dita. Mas ainda mais bonita é esta capacidade de mudar vidas com uma ideia, à partida, tão simples.