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Expresso

A vida de saltos altos

A Cristina Ferreira e o nosso Portugal dos pequeninos

Cristina Ferreira revelou no seu livro “Sentir” que foi alvo de assédio sexual em determinada fase da sua carreira, algo que deu azo a uma notícia. Após a mesma ser partilhada na web, a tribuna de ‘opinadores’ das redes sociais decidiu manifestar o seu aborrecimento e discordância sobre tal revelação, levando-nos a concluir – entre outras – as seguintes coisas: As mulheres gostam de ser assediadas. Nenhuma mulher consegue subir na carreira se não for na horizontal. Quanto ao sucesso no mercado de trabalho, só as que têm um palminho de cara e atributos físicos dignos de passarela é que o conseguem alcançar. O assédio faz mesmo parte do processo de ascensão profissional feminina, portanto as mulheres têm de saber lidar com ele. Por outro lado, isto do assédio não passa de uma invenção das mulheres, que não têm mais nada para fazer do que usar esta queixa para chatear os homens, Deus lhes dê paciência. Em tom de conclusão, as mulheres andam todas muito confusas e histéricas: o assédio sexual não passa de uma forma de manifestação de interesse.

Quando decidirem apregoar aos quatros ventos que não se percebe por que é que as vítimas de assédio e abuso sexual – neste caso, no meio laboral - têm receio de apresentar queixa, lembrem-se dos comentários que juntei na imagem que abre este texto. Se não fossem tão graves, e sintomáticos da mentalidade misógina que ainda prevalece na nossa sociedade, até davam para rir. Mas não, são reais. E está na altura de deixarmos de fazer piadinhas com temas tão sérios quanto este. O assédio e o abuso sexual não podem ser tratados com leveza.

É incrível como se continua a tender para a normalização e desvalorização de algo que não só não é aceitável, como é, inclusive, crime. Infelizmente, o assédio sexual e moral em meio laboral continua a ter números elevados no nosso país: no ano passado, os resultados do estudo “Assédio Sexual e Moral no Local de Trabalho em Portugal” mostravam que pelo menos 12,6% da população ativa do país já tinha sido alvo deste tipo de situação. Os superiores hierárquicos continuam a ser quem mais assedia, e as mulheres as que mais são assediadas.

A forma como tal acontece? Falemos no plural porque existem tantas formas possíveis: perguntas intrusivas sobre a vida privada, comentários inapropriados (usarem o tom de brincadeira para o fazer é um clássico), olhares insinuantes, propostas explícitas, sejam elas verbais, por email ou sms, pequenos contactos físicos, apalpões descarados, beijos forçados ou coação verbal, aludindo à possibilidade de um despedimento em caso de recusa, são todas elas situações ainda comuns, embora intoleráveis. Mas se olharmos para o tipo de resposta popular à revelação que Cristina Ferreira faz no livro, percebemos que para muita gente isso não é bem assim. É só algo a que as mulheres já deviam estar habituadas e ter jogo de cintura para lidar.

Não, as mulheres não chegam ao topo na horizontal

Por outro lado, é também impressionante a facilidade com que se cospem verdadeiras agressões verbais no universo das redes sociais, esse terreno dos pequenos inquisidores do mundo virtual. Tal como é perturbador constatar que uma mulher ser bem sucedida ainda causa um tremendo mal-estar geral, digno de infâmias e vaias em praça pública. É verdade, isto do poder, da riqueza, da ascensão profissional e económica foi durante muitos séculos algo praticamente exclusivo ao mundo masculino. Mas, pasmem-se: as mulheres, assim tenham elas oportunidades, também o conseguem. E não precisam de “chupar pilas” a ninguém, como o senhor do comentário acima gosta de frisar, com tanta classe e respeito. É curioso que a capacidade de trabalho, intelecto, liderança, organização, perseverança e estratégia das mulheres seja algo que ainda merece tanta raiva e desdém. E desse desdém resultam ideias como esta, de que só na horizontal é que uma mulher consegue chegar ao topo. Ideia que vem de longe e que, consciente e inconscientemente, é ainda perpetuada por homens e mulheres nos tempos de hoje.

Cristina Ferreira não é só uma apresentadora de programas populistas da televisão portuguesa, Cristina é também uma grande estratega e empresária. Entendo que muita gente possa não gostar ou não se rever no tipo de programa que ela faz no pequeno ecrã, tão direcionado às massas. Tal como com o estilo da sua revista ou com os conteúdos do seu blogue. Mas isso não significa que Cristina Ferreira não seja uma profissional com todo o mérito, daquelas que conseguiu conquistar a atenção de milhões de pessoas em Portugal. Como? À conta do seu trabalho, do empenho, do profissionalismo, da tenacidade, da capacidade de criar uma marca em torno de si própria, partindo do zero. E se há algo que a meritocracia deveria aplaudir, é precisamente essa capacidade. No universo do Portugal do pequeninos, estão longe de conseguirem perceber isso.